Ética Profissional em PsicanáliseApostila · Prof.ª Dr.ª Kátia Rodrigues Montalvão Paias · UniCV

Unidade I

Fundamentos éticos da psicanálise e suas implicações para a prática clínica e a formação do psicanalista

p.2Prof.ª Dr.ª Kátia Rodrigues Montalvão Paias

p.2Olá, estudante! No decorrer deste e-book estudaremos os fundamentos éticos da psicanálise e suas implicações para a prática clínica e a formação do psicanalista. Os princípios norteadores da conduta profissional, como o sigilo, a abstinência, a neutralidade e o manejo da transferência e contratransferência. Os dilemas éticos contemporâneos na clínica psicanalítica e em diferentes contextos de atuação. Assim como discutiremos sobre a importância da análise pessoal e da supervisão contínua para a sustentação de uma postura ética.

p.3Caro(a) estudante, ao ler este e-book você vai: Analisar os fundamentos éticos da psicanálise, compreendendo suas implicações para a prática clínica e para a formação crítica e responsável do psicanalista. Examinar os princípios éticos que orientam a conduta profissional, considerando suas implicações para a atuação responsável e comprometida nas práticas clínicas e institucionais. Investigar a articulação entre ética, responsabilidade profissional, o desejo do analista e o respeito à singularidade do sujeito, visando uma escuta clínica sensível e comprometida. Debater dilemas éticos contemporâneos que emergem na clínica psicanalítica e em diferentes contextos de atuação, considerando os desafios da prática profissional frente às transformações sociais e culturais.

p.3Introdução

p.3Nesta unidade estudaremos sobre o percurso que vai de Freud a Lacan para mostrar que, desde o início da psicanálise, o desejo não é um detalhe da vida psíquica, mas o seu núcleo. Por isso, o desejo precisa ser regulado, recalcado e traduzido para que o sujeito possa viver em sociedade. O desejo infantil, sexualizado e indestrutível, encontra barreiras no sistema psíquico e nas exigências morais da cultura, produzindo sintomas, sonhos e formas de sofrimento que têm a mesma lógica.

p.3Na sequência, o texto mostra que Lacan retoma Freud para criticar leituras adaptativas da psicanálise e recolocar a ética no ponto certo, não na moral, mas na relação do sujeito com o seu desejo. Em vez de propor um código de conduta, Lacan pensa a ética como fidelidade ao desejo, articulando conceitos como falta, lei, gozo, das Ding e a figura trágica de Antígona, que não cede mesmo diante da morte. Assim, a ética da psicanálise aparece como algo singular, que não se guia pelo “bem” socialmente aceito, mas pela verdade do sujeito.

p.4Por fim, o capítulo aproxima ética e método: não há clínica psicanalítica sem uma posição do analista que sustente o inconsciente, a transferência e a fala livre, sem moralizar nem corrigir o paciente. Tanto em Freud quanto em Lacan, investigar o inconsciente é, ao mesmo tempo, uma questão de técnica e de ética, porque supõe não forçar o sujeito a renunciar ao desejo que o constitui, mas permitir que ele o reconheça e o expresse pela palavra. Trata-se de pensar no desejo, lei e verdade como eixos de uma prática que continua atual.

p.4Desejo e moral em Freud

p.4No livro A Interpretação dos Sonhos (1900/2010), no capítulo VlIl, Freud apresentou as primeiras elaborações sobre o inconsciente e seus aspectos econômicos, dinâmicos e topográficos. Organizou o inconsciente, distinguiu o consciente e o inconsciente, apresentou o processo do recalque e suas consequências psíquicas para os sonhos, as quais são iguais para os sintomas, apresentou a importância do desejo como desejo infantil. Freud desenvolveu uma nova metapsicologia através da sua concepção acerca do aparelho psíquico, que não se limita apenas aos estudos dos sonhos, mas transcende.

Figura da página 5

FIGURA 1 - Freud

Fonte: Pixabay/janeb13.

p.6Para Freud (1900/2010) os sonhos são realizações de desejos, os quais estão no inconsciente. Os sonhos são vítimas invariáveis de um recalque e de sua essencial insatisfação, que estão no inconsciente, que são deslocadas através dos sonhos. É importante compreender que os desejos para chegarem à consciência percorrem um caminho com empecilhos. Da mesma forma que os sonhos são meios para a realização de desejos recalcados.

p.6Entretanto, os sonhos não significam a satisfação completa ou definitiva do desejo, mas a manifestação dele. O sonho permite que o desejo tenha pulsão, encontre satisfação, ou seja, possa ser realizado, ao mesmo tempo que o sujeito esteja dormindo e não sinta culpa pela realização do seu desejo.

p.6O sonho possui a mesma dinâmica que os sintomas, os quais manifestam por causa de desejos recalcados inconscientemente. Deste modo, os sonhos e os sintomas são desejos recalcados, os quais são suprimidos pelo recalque e impedidos de chegarem à consciência (Freud, 1900/2010).

p.6Tanto o sonho como os sintomas são representações, são produtos de certas fantasias inconscientes, as quais são oriundas de moções sexuais, que encontram expressão nos sonhos, também nas fobias histéricas e outros sintomas. Segundo Freud (1900/2010), o desejo está intrinsecamente ligado a outros elementos elementares, como as vivências infantis e possui raiz sexual. Os desejos são originados e intensificados a partir das experiências de cunho sexual (Freud, 1900/2010).

p.6Para buscar a origem do desejo precisa regressar às vivências mais arcaicas, Os elementos da vida de vigília adulta devem ser relacionados aos conteúdos infantis. Freud (1900/2010) determina a gênese do sujeito desejante a partir da relação entre a criança e suas primeiras experiências que ficam registradas no inconsciente.

p.6Segundo Freud (1915/2010) o inconsciente é constituído por representações psíquicas marcadas pelas experiências sexuais infantis. Portanto, os desejos sexuais infantis, que no plano da aparência são estranhos à vida, possuem ligações simbólicas que manifestam sonhos e sintomas. Os desejos que foram recalcados não deixam de existir, pelo contrário, eles continuam disponíveis no inconsciente e podem voltar a se manifestar sempre que houver excitação psíquica suficiente para abrir novamente esse caminho.

p.7Um traço próprio do inconsciente é a condição de indestrutibilidade, pois no inconsciente nada fica definitivamente no passado ou realmente esquecido. Isso aparece nas neuroses, sobretudo na histeria, em que a mesma via inconsciente pode ser novamente percorrida e produzir o sintoma quando a carga psíquica aumenta (Freud, 1915/2010).

p.7Segundo Freud (1905/1996) as crianças possuem uma sexualidade perversa polimorfa que é vivida com extrema liberdade. Entretanto, as forças nos elementos moralizantes da cultura fazem das crianças vítimas do recalque, os quais formarão a base de toda a vida adulta dos sujeitos. O inconsciente é vivido pelo adulto como atemporal, as maneiras de obtenção de prazer infantis permanecem na vida adulta de diversas formas. Os desejos que marcaram suas primeiras experiências com a sexualidade permanecem indestrutíveis.

p.7Em 1905, Freud avança mais, apresentando o que foi um escândalo para sua época e por que não dizermos para hoje também: o texto que se chama os Três ensaios da teoria da sexualidade, afirma no ensaio sobre a sexualidade infantil, que a criança não é aquele ser ingênuo e absolutamente sem malícia como se descreve normalmente, mas que a criança tem uma sexualidade e, que além do mais, esta sexualidade é perversa. Observa, por meio das atividades infantis, que a criança gosta de se exibir e de ficar olhando, ou seja, que ela é exibicionismo e voyeurista, que gosta de chupar, se masturbar e que tem atividades anais e sadomasoquistas. O que se encontra nessa sexualidade infantil aparece nos perversos na idade adulta, nas alucinações e delírios dos psicóticos, no inconsciente dos neuróticos e nos jogos sexuais de todos (Quinet, 2003, p. 23-24).

p.8Quinet (2003), ao comentar Freud, mostra que o vínculo entre inconsciente e sexualidade tem duas faces, de um lado, o inconsciente funciona como uma linguagem, tal como Freud demonstra em “A interpretação dos sonhos”; de outro, há a dimensão pulsional, que empurra o sujeito para a satisfação. Porém, quando essa satisfação esbarra nas exigências do consciente e da censura, o desejo não pode realizar-se diretamente e acaba encontrando uma via indireta de expressão: ele se realiza no sintoma.

p.8Os desejos inconscientes não podem ser eliminados, por isso, não é possível evitar seus efeitos. Eles são responsáveis por manter uma carga contínua de energia no aparelho psíquico que precisa ser processada.

p.8Para Freud (1915/2010)., o destino inevitável dos desejos é o recalque, a forma que esta energia reprimida é liberada influencia a formação da moral do sujeito que conviverá na sociedade. O sintoma, que é a expressão típica do recalque, aparece tanto no indivíduo na vida adulta. O recalque dos desejos infantis para conviver em sociedade ocasiona sofrimento e conflitos psíquicos inconscientes.

p.8Neste contexto, a moral civilizada, com seus desvios frequentes dos desejos sexuais infantis, ocasiona o desenvolvimento de estruturas que estão sempre próximas do patológico. A impossibilidade de eliminar os desejos inconscientes gera conflitos subjetivos persistentes, os quais manifestam individualmente e coletivamente, refletindo-se no mal-estar presente nas estruturas da civilização. Para que se constitua a formação do eu e nasça um sujeito civilizado, o aparelho psíquico do sujeito precisa lidar com a realidade. Esse Eu é o resultado da construção ética humana, assim como o agente dessa construção.

p.9Para explicar, Freud propõe dois funcionamentos da subjetividade (que ele chama de aparelho psíquico): o processo primário baseado no princípio do prazer, que visa apenas a satisfação; e o processo secundário, dominado pelo consciente, que visa o recalcamento dos desejos que pululam no processo primário. Constitui então sua primeira tópica, ao afirmar a existência do inconsciente e do consciente ou pré-consciente. Basta se fazer um esforço de atenção, e chega-se ao préconsciente; daí ele se torna consciente. O inconsciente não. Há uma barreira entre o inconsciente e o consciente. Freud formula, portanto, logo de início, a subjetividade humana em conflito, estirada em dois topos, designando a divisão do sujeito entre o que ele quer inconscientemente e o que ele conscientemente não quer ou ignora que quer. Encontramos aqui a própria definição de sujeito por Lacan como sujeito dividido: o primeiro nome dessa divisão em Freud é a divisão entre o inconsciente e o consciente (ou pré-consciente) (Quinet,

p.9Desta forma, o recalque do desejo sexual infantil, que originalmente gera prazer na infância, na fase adulta torna-se uma ameaça à sua estabilidade, por isso passa a ser percebido como desprazer pelo eu. Isso ocorre porque o princípio do prazer, mais antigo e fundamental, ligado às experiências sexuais infantis entra em conflito com o princípio da realidade na fase adulta.

p.9Nesse processo, o Eu aprende a distinguir entre o mundo interno e o externo, tornando possível sua relação com o que é considerado realidade. Esta tentativa de substituir o princípio da realidade pelo princípio do prazer é sempre instável. Isso ocorre porque há um desequilíbrio entre os desejos inconscientes e as possibilidades reais de satisfazê-los conscientemente. O desejo está em constante movimento, mas não encontra na realidade um objeto capaz de satisfazê-lo plenamente. Por isso, a pulsão nunca se realiza por completo, ela é sempre parcial.

p.10Ética do desejo em Lacan: entre o real, o gozo e a lei

p.10Lacan fez uma proposta ética sobre a prática do psicanalista, é uma reflexão sobre as bases epistemológicas que norteiam o trabalho analítico e a prática do analista na clínica (Júnior, 2008). O intuito foi combater a prática da psicanálise que é distante da experiência do inconsciente, que marcou a metade do século XX por causa das influências da psicanálise americana, que estava praticando à adaptação e conformação do ego à realidade.

p.10Deste modo, os estudos de Lacan sobre a ética psicanalítica:

p.11[..] evidenciava-se uma preocupação não somente em sistematizar a teoria psicanalítica e diferenciá-la daquilo que foi denominado psicologia do ego, mas resgatar o verdadeiro sentido da obra freudiana. Sua crítica fundamentava-se no caráter conformista que a análise passou a adotar através da apropriação tendenciosa de certos textos freudianos, como O Ego eo ld (Freud, 1923), transformado num guia ao pé da letra. Nesta psicologia voltada para o ego, ao eu do paciente foi dada o função de “tomar o comando” da pulsão, tornando-se novamente o Senhor de sua própria casa, a despeito das afirmações de Freud sobre o propósito contrário da psicanálise. Ciente da fragilidade do eu e da necessidade de uma prática coerente, Lacan ressaltou a importância de resgatar o verdadeiro propósito da análise: uma terapêutica baseada na experiência do desejo inconsciente - o que significa, ao mesmo tempo, abordar a relação constituinte do sujeito com a falta Júnior, 2008, p. 55-56).

p.11Lacan, ao identificar a necessidade de uma prática coerente e o quanto o Eu é frágil, resgatou o verdadeiro propósito da análise. Para Lacan, o verdadeiro propósito e ética da psicanálise é propiciar uma experiência terapêutica baseada na experiência do desejo inconsciente e ao mesmo tempo abordar a relação constituinte do sujeito com a falta.

Figura da página 12

FIGURA 1 - Ética e desejo

Fonte: Freepik/tohamina.

p.12Neste contexto, Jacques Lacan escreve em seu Seminário 7: A Ética da Psicanálise. O intuito foi estabelecer novos contornos acerca da ética, para que a ética da psicanálise fosse vinculada a base epistemológica de Freud. Ao mesmo tempo propôs um distanciamento entre a ética da psicanálise e a ética da moral e da normatividade responsáveis por atender as demandas mercadológicas do capitalismo, com a subordinação e adaptação do ego à realidade e as exigências do mercado.

p.13A partir da releitura da obra freudiana, Lacan constrói uma ética que não se ancora em valores universais ou normas sociais, mas na fidelidade do sujeito ao seu desejo. Lacan propõe uma reconfiguração radical da ética, deslocando seu eixo da moralidade para o desejo. Para compreender a ética do desejo em Lacan é essencial explorar os fundamentos, implicações e tensões da ética do desejo, articulando conceitos como das Ding, gozo, lei, sublimação e trágico, com destaque para a análise da tragédia de Antígona, os quais serão discutidos a seguir.

p.13A Ética como Estrutura do Desejo

p.13Lacan faz a distinção fundamental entre ética e moral, ou seja, ética não é moral. Segundo Lacan (2008, p. 94) “a ética não é o simples fato de haver obrigações, um laço que encadeia, ordena e constitui a lei da sociedade”, isso é a moral que se refere a um conjunto de normas e valores sociais.

p.13Entretanto, a ética, para a psicanálise, diz respeito à estrutura da ação do sujeito em relação ao seu desejo. A ética lacaniana é, portanto, uma ética do inconsciente, centrada na fidelidade ao desejo como vetor da verdade subjetiva.

p.13A ética começa para além dos valores sociais:

p.13Ela começa no momento em que o sujeito coloca a questão desse bem que buscara inconscientemente nas estruturas sociais - e onde, da mesma feita, foi levado a descobrir a ligação profunda pela qual que se apresenta para ele como lei está estreitamente ligado à própria estrutura do desejo (Lacan, 2008, p. 94-95).

p.14A partir de Freud, Lacan identifica o desejo como o núcleo da experiência psicanalítica. O desejo não é uma vontade consciente, mas uma estrutura inconsciente, articulada na linguagem é marcada pela falta.

p.14O fato de o homem ser apreendido no campo do inconsciente tem um caráter primitivo, fundamental. Ora, esse campo, dado que já está logicamente organizado, comporta uma Spaltung que se mantém em toda a segtiiência do desenvolvimento, e é em relação a essa Spaltung que deve ser articulado, em sua formação, o desejo como tal. Esse desejo apresenta assim certas arestas, um certo ponto de obstáculo, e é precisamente nisso que ocorre que a experiência freudiana complica a direção dada ao homem de sua própria Integração (Lacan, 2008, p. 250-251).

p.14Para Lacan (2008), a partir da leitura de Freud, o desejo ocupa o centro da experiência psicanalítica. Ele não é uma vontade consciente, mas uma estrutura inconsciente, marcada pela falta e articulada pela linguagem. O sujeito do inconsciente é, por definição, dividido em uma divisão estrutural (Spaltung) que organiza sua relação com o desejo. A ética da psicanálise, nesse contexto, não visa a realização plena do desejo, mas sim a sustentação de sua tensão, que revela a verdade do sujeito, mesmo diante do sofrimento, da culpa ou da morte.

p.14Portanto, a razão, o discurso, a articulação significante como tal, ela está aí em estado inconsciente. O desejo antecede o nascimento de toda coisa referente à experiência humana, entretanto, é dissimulado, desconhecido, pois é inconsciente, nem o próprio sujeito que é seu suporte saiba dele e/ou dos conteúdos do seu inconsciente.

p.14Das Ding: A Coisa como Núcleo da Ética

p.15Um dos conceitos centrais da ética em Lacan é a Coisa (Das Ding), que é o núcleo irrepresentável do desejo, o objeto que foi perdido originariamente e que estrutura a busca do sujeito. Das Ding é o objeto impossível, fora do campo do significante, mas que organiza o campo do desejo.

p.15Lacan retoma o Entwurf de Freud para localizar o objeto impossível, no Seminário 7, A Ética da Psicanálise, Jacques Lacan faz diversas referências ao Entwurf, nome alemão que significa "esboço" ou "rascunho", e que se refere ao texto de Freud de 1895 intitulado Entwurf einer Psychologie (Esboço de uma psicologia científica). Esse texto é considerado um dos primeiros esforços de Freud para construir uma teoria do funcionamento psíquico com base neurofisiológica.

p.15O Entwurf contém os primeiros traços daquilo que se tornaria a metapsicologia freudiana, incluindo a articulação entre prazer, realidade, desejo, recalque e ética. Portanto, Lacan fundamenta-se neste texto para explicar que a Coisa é o que o sujeito tenta reencontrar em todas as suas buscas, mas que permanece ausente, interditada e inatingível.

p.15Nem a ciência nem a religião são aptas para salvar a Coisa, nem a nos dá-lo, uma vez que o círculo encantado que dela nos separa é estabelecido por nossa relação com o significante. Como lhes disse, a Coisa é o que do real padece dessa relação fundamental, inicial, que induz o homem nas vias do significante, pelo fato mesmo de ele ser submetido ao que Freud chama de princípio do prazer, e que está claro, espero, no espírito de vocês, que não é outra coisa senão a dominância do significante - digo, o verdadeiro princípio do prazer tal como ele funciona em Freud (Lacan, 2008, p. 164).

p.15É nesse ponto que a ética se inscreve: o sujeito deve sustentar a falta, não ceder à tentação de preenchê-la com objetos substitutivos que o alienam de seu desejo. A ética do desejo é, portanto, uma ética do real, do impossível, do que não se deixa simbolizar.

p.16O Gozo e a Lei: Entre o Supereu e a Transgressão

p.16A ética do desejo em Lacan não é uma ética do prazer, mas do gozo (jouissance), conceito que ultrapassa o princípio do prazer e se aproxima do sofrimento, da transgressão e da morte. O gozo é o que se experimenta quando o sujeito se aproxima da Coisa (Das Ding), núcleo irrepresentável do desejo, ao se aproximar deste núcleo rompe os limites do simbólico.

p.16Sade está nesse limite, e ele nos ensina, na medida em que imagina transpô-lo, que cultiva essa fantasia com o deleite moroso - tornarei a voltar a esses termos - onde ela se desenvolve. Enquanto ele o imagina, ele demonstra a estrutura imaginária do limite. Mas também ele o transpõe. Não o transpõe, evidentemente, na fantasia, e é justamente isso que confere seu caráter fastidioso, na teoria, na doutrina proferida em palavras que são, segundo os momentos de sua obra, o gozo da destruição, a própria virtude do crime, o mal buscado pelo mal, e em última instância- referência singular do personagem Saint-Fond que proclama na História de julieta sua crença, certamente renovada, mas não totalmente nova, nesse Deus o Ser-supremo-em-maldade (Lacan, 2008, p. 236).

p.16A lei, nesse contexto, não é apenas repressiva. Ela é o que estrutura o desejo, ao interditar o incesto e instaurar a falta. Paradoxalmente, a lei também sustenta o gozo, como mostra Lacan ao analisar o marquês de Sade. A ética sadiana, que propõe o crime como dever moral, revela a cumplicidade entre a lei o gozo. O supereu, longe de ser apenas um censor, é também uma instância que exige gozo, que comanda: “Goza!”.

p.17Sublimação: A Elevação do Objeto à Dignidade da Coisa

p.17A sublimação é o processo pelo qual o desejo encontra uma via de expressão que não passa pela satisfação direta, mas pela elevação do objeto ao nível da Coisa. A arte, a ciência e a religião são formas privilegiadas de sublimação, pois permitem ao sujeito sustentar a falta sem ceder ao apaziguamento moralista.

p.17Destarte citei-lhes uma fórmula muito curta que aproxima os mecanismos respectivos da histeria, da neurose obsessiva e da paranóia, de três termos de sublimação- a arte, a religião e a ciência. Em outro lugar ele aproxima a paranóia do discurso científico. Essas indicações nos ajudarão a articular, em toda a sua generalidade, a fórmula com que, no final, chegaremos a ordenar a função da sublimação na referência à Coisa (Lacan, 2008, p. 157-158).

p.17Na relação entre a Coisa e o sujeito, a função que o sujeito exerce é a função do medium entre o real e o significante. A Coisa é o registro da sublimação,que é representada por um vazio. Porque a Coisa não pode ser representada por outra coisa, ou seja, o seu desejo impossível de ser realizado. A Coisa não pode ser representada senão por outra coisa a não ser a sublimação, por isso, em toda forma de sublimação o vazio será determinante.

p.17Antígona: A Figura do Desejo Absoluto

p.17A análise da tragédia Antígona presente no Seminário 7 - A Ética da Psicanálise ocupa um lugar central. Pois, a Antígona representa o sujeito que não cede em seu desejo, mesmo diante da morte. Ela ultrapassa o limite e se coloca entre duas mortes, a morte simbólica (exclusão da cidade) e a morte real.

p.18Esse corte é manifesto a todo instante pelo seguinte, a linguagem esconde tudo o que ocorre no movimento da vida. Autônomos, é assim que o Coro situa Antígona, dizendo-lhe - Segues em direção à morte, não conhecendo tua própria lei. Antígona sabe a que está condenada a jogar, digamos assim, um jogo cujo resultado é conhecido de antemão. Isso é efetivamente colocado como um jogo por Creonte. Ela está condenada à câmara clausurada da tumba onde se desenrolará de saber se os deuses daqui de baixo prestar-lheão algum a prova, a socorro. É nesse ponto de ordália que se propõe a condenação de Creonte, que lhe diz- Vamos ver a que isso te servirá, essa fidelidade aos deuses daqui de baixo. Terás o alimento que sempre é posto junto aos mortos em forma de oferenda, e veremos bem quanto tempo viverás com isso (Lacan, 2008, p. 330).

p.18A ação de Antígona revela a estrutura do desejo em sua pureza trágica. Ela não age por um bem moral, mas por fidelidade a um desejo que a transcende. A tragédia, nesse sentido, é o lugar privilegiado da ética, pois mostra o sujeito confrontado com o real de seu desejo, com o impossível de sua realização.

p.18A Ética como Fidelidade ao Desejo

p.18Para Lacan (2008) a única culpa verdadeira é ceder ao desejo, por isso, a ética da psicanálise não é uma moral de bons costumes, mas uma ética do ato analítico, que exige do sujeito a coragem de suportar seu desejo até o fim. O analista, nesse contexto, é aquele que sustenta o lugar da falta, que não oferece um bem, mas confronta o sujeito com o real de seu desejo.

p.19Proponho que a única coisa da qual se possa ser culpado, pelo menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo. Essa proposição, aceitável ou não em tal ética, expressa suficientemente bem o que constatamos em nossa experiência. Em última instância, aquilo de que o sujeito se sente efetivamente culpado quando apresenta culpa, de maneira aceitável ou não pelo diretor de consciência, é sempre, na raiz, na medida em que ele cedeu de seu desejo (Lacan, 2008, p. 373).

p.19Essa ética é, portanto, singular, pois não se baseia em normas universais, mas na estrutura do sujeito em sua relação com o significante e com o real. Ela é também trágica e cômica, pois o desejo é sempre desmedido, hiperbólico, e sua realização implica riscos, perdas e gozo.

p.19Método e ética da psicanálise

p.19Em 1923 Freud (1923/2012) foi convidado pela Encyclopaedia Britannica a redigir dois verbetes: um sobre a psicanálise e outro sobre a teoria da libido. No verbete Psicanálise, Freud descreve três aspectos fundamentais sobre a Psicanálise: a psicanálise é um método de investigação do inconsciente, um procedimento terapêutico e um corpo teórico. Para Freud (1923/2012) a psicanálise é um procedimento para investigar processos mentais, os quais são quase inacessíveis por qualquer outro caminho.

p.19Freud: o método da associação livre e a escuta analítica

p.19O método de análise é fundamentado na escuta flutuante, sem direção prévia, permitindo que o inconsciente do analisando se manifeste livremente: Fundamenta-se na interpretação dos sonhos, atos falhos, sintomas e associações livres. Para Freud (1912/2011) a psicanálise consiste em escutar o paciente sem intenção de notar nada, e evitar fixar-se em determinado ponto da fala.

p.20Assim, o método freudiano é clínico, interpretativo e simbólico, guiado pela associação livre do analisando e pela atenção flutuante do analista, sustentando o campo do inconsciente como discurso. Em suas obras Freud não fala em “ética” nos termos filosóficos, mas todas abordam a ética da verdade, que é o compromisso com o que o sujeito diz, mesmo quando isso é doloroso. Segundo Quinet (2003, p.106) “o sujeito suposto saber é o efeito de significado da articulação significante, ou seja, produto da associação livre desencadeada pelo enganche simbólico da transferência”.

p.20O inconsciente, enquanto tal, se manifesta através dessa articulação de significante em significante - eis por que Freud inventa uma técnica, que tem apenas uma regra, que é “a regra de ouro da psicanálise”: a associação livre. E que, na verdade, não tem nada de livre, pois a tendência do inconsciente é repetir. A associação de ideias é marcada pelos pensamentos recalcados que dão a ordenação da cadeia associativa; são os significantes recalcados veiculadores de cenas em que se manifesta o desejo: significantes mestres que orientam a cadeia significante do sujeito (Quinet, 2003, p. 35).

p.20A psicanálise busca a verdade do inconsciente, de acordo com Freud (2014, p.35), “a verdade não pode ser imposta ao paciente, ela deve ser descoberta por ele.” Deste modo, a ética analítica consiste em não ceder à tentação de moralizar ou sugerir condutas, pois o analista não é guia moral, mas testemunha da verdade inconsciente.

p.20(Clique no + ao lado esquerdo para visualizar todo o conteúdo)

Desejo:

O desejo ocupa o centro da experiência psicanalítica. Ele não é uma vontade consciente, mas uma estrutura inconsciente, marcada pela falta e articulada pela linguagem.

Ética:

A ética da psicanálise que não se ancora em valores universais ou normas sociais, mas na fidelidade do sujeito ao seu desejo. Lacan propõe uma reconfiguração radical da ética, deslocando seu eixo da moralidade para o desejo. Deve-se explorar os fundamentos, implicações e tensões da ética do desejo, articulando conceitos como das Ding, gozo, lei, sublimação e trágico, com destaque para a análise da tragédia de Antígona, os quais serão discutidos a seguir.

Culpa:

A única culpa verdadeira é ceder ao desejo, por isso, a ética da psicanálise não é uma moral de bons costumes, mas uma ética do ato analítico, que exige do sujeito a coragem de suportar seu desejo até o fim.

Verdade:

A psicanálise busca a verdade do inconsciente, a verdade não pode ser imposta ao paciente, ela deve ser descoberta por ele. Deste modo, a ética analítica consiste em não ceder à tentação de moralizar ou sugerir condutas, pois o analista não é guia moral, mas testemunha da verdade inconsciente.

p.21Lacan: o retorno ao método freudiano pelo viés da linguagem

p.22Jacques Lacan retoma Freud e reformula o método à luz da linguística estrutural e da filosofia. Segundo Lacan (2008) o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e o método psicanalítico é, portanto, um método de escuta do significante.

p.22No final das contas, não apreendemos o inconsciente senão em sua explicação, no que dele é articulado que passa em palavras. É daí que temos o direito - e isso, ainda mais porque a continuação da descoberta freudiana no-lo mostra de nos darmos conta de que esse inconsciente não tem, ele mesmo, afinal, outra estrutura senão uma estrutura de linguagem (Lacan, 2008, p. 45).

p.22Lacan também redefine a posição do analista como sujeito suposto saber, cuja função é fazer surgir o desejo e a verdade do sujeito no discurso. Para Lacan (1998, p. 253) “o analista deve ocupar o lugar do sujeito suposto saber para que o inconsciente possa se endereçar a ele.”

p.22Para Lacan a ética do desejo é não ceder sobre o seu desejo, ou seja, o analista não conduz, sustenta a falta e deixa o sujeito se confrontar com o seu desejo. Para Lacan (2008, p. 376) “a única coisa da qual se pode ser culpado é de ter cedido de seu desejo”.

p.22Assim, o fundamento ético da análise é “não ceder sobre o desejo”, ou seja, não renunciar ao desejo que constitui o sujeito. A ética lacaniana é uma ética do desejo, e não do bem. O analista, portanto, não atua segundo normas morais, mas sustenta o lugar de causa do desejo do sujeito.

Saiba mais

p.23O psicanalista Christian Dunker se debruça sobre um fenômeno curioso da vida psíquica: o fato de sentirmos prazer justamente naquilo que nos amedronta. Tomando como referência Freud, Lacan e também produções de autores e cineastas como Edgar Allan Poe, Stephen King e Alfred Hitchcock, Dunker elabora uma espécie de cartografia psicanalítica do medo que vai do impacto imediato do susto até o clima denso do horror para mostrar como o terror está ligado ao desejo, à culpa e à curiosidade. Para saber mais, acesse:

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Figura da página 27

p.27Conclusão

p.27Ao longo desta unidade vimos que Freud parte do conflito entre desejo e realidade para explicar por que o sujeito, ao se tornar civilizado, paga o preço do recalcamento. A moral da cultura, ao exigir a contenção dos desejos sexuais infantis, produz formas de sofrimento e de mal-estar que se manifestam tanto no indivíduo quanto no laço social. Para dar conta disso, Freud descreve um aparelho psíquico dividido, com processos primário e secundário, mostrando que o inconsciente não desaparece: ele retorna sob outras formas.

p.27A partir daí, acompanhamos como Lacan retoma Freud para recentrar a psicanálise no desejo e na falta, e não na adaptação do eu. Ele critica as leituras que transformaram a análise em um caminho de ajustamento e recoloca a ética no ponto freudiano: o sujeito é chamado a não ceder de seu desejo. A figura de Antígona e a formulação de que “a única culpa é ceder do desejo” mostram que a ética da psicanálise não é uma moral de bons costumes, mas uma ética que põe o sujeito diante do real de seu desejo e do limite imposto pela lei e pelo gozo.

p.27Concluímos, portanto, que método e ética caminham juntos na psicanálise: só há clínica se o analista sustentar o lugar da falta, a transferência e a fala livre, sem oferecer ao sujeito um “bem” adaptativo pronto. Esse é um ponto de chegada da unidade, mas também um ponto de partida. Para aprofundar, vale continuar a leitura do Seminário 7 de Lacan, revisitar os textos metapsicológicos de Freud e explorar debates atuais sobre clínica e laço social. Quanto mais o estudante percorrer essas fontes, mais poderá compreender a força e a atualidade de uma ética do desejo.

p.27Referências Bibliográficas

p.28Livro

p.28ANDRADE JÚNIOR, Moisés. Ética da psicanálise e desejo do analista: bases conceituais do desejo do analista na ética do Seminário VIl de Lacan. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, [2008].

p.28FREUD, Sigmund. Obras completas: volume 13 - 1923-1925. Organização e notas de Luiz Hanns; tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 15.

p.28FREUD, Sigmund. O inconsciente (1915). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

p.28FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 7. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

p.28FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: FREUD, Sigmund. Obras completas: volume 12 - 1911-1913. Organização e notas de Luiz Hanns; tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 125.

p.28FREUD, Sigmund. Obras completas: volume 23 - 1937-1939. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

p.28FREUD, Sigmund. A psicologia dos processos oníricos. In: FREUD, interpretação dos sonhos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas, v. 5).

p.28LACAN, Jacques. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise: Seminário, livro 11 (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

p.28QUINET, Antonio. A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Unidade II

Princípios norteadores da conduta profissional

p.29Introdução

p.29Este capítulo apresenta a ética psicanalítica a partir de Freud e Lacan, mostrando que ela nasce não de regras morais externas, mas da própria estrutura do aparato psíquico e do modo como o sujeito lida com o desejo, o prazer e o malestar na cultura. Freud descreve o percurso do princípio do prazer ao princípio da realidade e explica que a vida em sociedade exige renúncia pulsional, gerando conflitos internos que a psicanálise busca tratar.

p.29A partir dessa base freudiana, o texto mostra que Lacan recoloca a ética no ponto do desejo e não da adaptação: o sujeito procura análise porque sofre, mas esse sofrimento está ligado ao modo como a moral recalcou suas pulsões e organizou o sintoma. Assim, a ética em psicanálise não é confirmar normas sociais, mas criar um campo simbólico para que o real desejo seja tratado pela fala e pela transferência.

p.29Por isso o capítulo desdobra os principais operadores éticos da clínica - sigilo, abstinência, neutralidade e manejo da transferência e contratransferência mostrando que todos eles servem para proteger o lugar do inconsciente e impedir que a análise vire aconselhamento ou satisfação imediata. Trata-se de sustentar uma posição que permita ao sujeito responsabilizar-se por seu desejo e elaborar o que foi recalcado, mantendo a psicanálise fiel à sua lógica própria.

p.29Introdução à compreensão da Ética Psicanalítica

p.29Segundo Freud (1911/2010) todos os desejos dos seres humanos parte da libido, da sensação de prazer, a qual acontece desde a infância. Freud (1911/2010) explica que o princípio de prazer é o modo mais primitivo de funcionamento da mente humana. Ele se baseia na tendência natural de buscar o prazer e evitar o desprazer. Quando algo provoca um desequilíbrio interno, seja uma necessidade biológica, um conflito emocional ou uma influência externa, o indivíduo sente desconforto ou sofrimento. A mente, então, procura eliminar essa tensão e restaurar o equilíbrio, alcançando novamente uma sensação de prazer e bemestar.

p.30Com o amadurecimento psíquico e o desenvolvimento do ego, esse modo de funcionamento passa a ser moderado pelo princípio da realidade. Esse princípio não nega o prazer, mas o adia e o regula, levando o indivíduo a lidar com as exigências do mundo externo e a buscar formas mais realistas e socialmente aceitas de satisfação. Assim, o ser humano aprende a tolerar certo grau de desprazer momentâneo para obter um prazer mais duradouro ou seguro no futuro Freud (1911/2010).

p.30Freud (1911/2010) observa ainda que nem todo sofrimento é causado por essa transição entre prazer e realidade. Parte do desprazer também surge dos conflitos internos do próprio aparelho psíquico, especialmente quando o ego se desenvolve e precisa lidar com impulsos instintivos e exigências contraditórias. Esses conflitos são parte inevitável do processo de amadurecimento mental.

p.30limitação do princípio de prazer ocorre constantemente, o aparelho psíquico, em sua forma mais básica de funcionamento, tende a buscar o prazer de modo direto. Porém, quando consideramos a necessidade de o sujeito se conservar vivo e lidar com as exigências do mundo externo, essa busca imediata mostra-se insuficiente e até arriscada (Freud, 1911/2010).

p.30Por isso, sob impulso das tendências de autoconservação do eu, essa forma imediata de satisfação vai sendo substituída por outra modalidade de funcionamento, que Freud chama de princípio de realidade. Esse novo princípio não renuncia ao prazer como finalidade, mas impõe condições, como postergar a satisfação, renunciar a algumas vias possíveis de obtê-la e suportar certo desprazer como parte de um percurso mais longo até o prazer. Mesmo assim, as pulsões sexuais, que são menos dóceis a esse processo de “educação”, continuam por muito tempo operando segundo o modelo do prazer imediato e, não raro, conseguem sobrepor-se às exigências do princípio de realidade, ainda que isso traga prejuízo ao conjunto do organismo (Freud,1911/2010)

p.30Ele fala do prazer-desprazer que acompanha o indivíduo por toda a sua existência. No imediato os homens se esforçam para serem felizes e seu comportamento no mundo exterior é determinado pelo princípio do prazer, mas é limitado e experimentando infelicidades de três fontes:

p.31A felicidade, no sentido estrito do termo, surge da satisfação súbita de necessidades fortemente reprimidas, e é, por sua natureza, apenas um fenômeno episódico. O sofrimento ameaça a partir de três direções: do próprio corpo, que está fadado à decadência e à dissolução; do mundo externo, que pode nos destruir com suas forças poderosas e inexoráveis; e, finalmente, das relações com os outros seres humanos (Freud, 1930/2010, p. 32).

p.31Neste contexto, a ética na psicanálise não consiste na confirmação e na validação das normas e padrões de conduta a serem obedecidos, mas na ação em separar, recortar o que é do real, ou seja, a coisa em si, como tal, incognoscível a partir das representações simbólicas. “A ética é uma ação realizada pelo homem, qualquer que ela seja, que o põe em condições de tratar o real pelo simbólico” (Lacan, 1998. p. 197).

p.31Para Lacan (2008), os pacientes ao procurar a análise demandam apenas um objetivo que se resume em uma simples palavra: felicidade. O analisando pede algo que não tem, porque sente incômodo, sofrimento, mal-estar (quer seja sob forma de sintoma, angústia e inibição). Os analisandos pedem ao clínico uma ação no sentido de eliminar esse mal-estar para assim reconquistar o bem-estar perdido.

p.31Primeiramente, será que é o final da análise o que nos demandam? O que nos demandam, é preciso chamá-lo por uma palavra simples, é a felicidade. Com isso não digo nada de novo - uma demanda de felicidade, de happiness, como escrevem os autores ingleses na linguagem deles, é justamente disso que se trata (Lacan, 2008, p. 342).

p.32De acordo com Lacan (2008) a ética na Psicanálise somente é possível através da manutenção do desejo do analista e a busca pelo analisando de suprir a sua demanda, que é encontrar o seu bem-estar, ou seja, ser feliz.

p.32Segundo Freud (1930/2010) a moral na sociedade é um o problema que gera malestar, pois a vida em sociedade exige a repressão de parte dos impulsos e desejos inconscientes dos seres humanos. O ser humano é movido por pulsões, forças internas que impulsiona o psiquismo a buscar satisfação, a qual atua no inconsciente do sujeito e tem um objeto variável. A pulsão pode se ligar a diferentes pessoas ou coisas. Pode estar ligada à fonte, ou seja, a uma necessidade fisiológica ou sexual. Pode estar ligada a meta, que é a satisfação ou alívio da tensão. Assim como estar ligada a objeto, aquilo por meio do qual a pulsão alcança satisfação. E pode estar ligada ao impulso ou pressão, que é a força ou intensidade que impele à ação (Freud,1930/2010).

p.32Segundo Freud, as pulsões humanas se organizam em duas forças fundamentais: as pulsões de vida (Eros) e as pulsões de morte (Thanatos). As pulsões de vida buscam preservar, unir e criar vínculos são responsáveis pela conservação da espécie, pelo amor, pela cooperação e pela formação da cultura. Já as pulsões de morte expressam a tendência à destruição, à agressividade e ao retorno ao estado inorgânico, manifestando-se em comportamentos como violência, guerras e outras formas de ruptura (Freud,1930/2010).

p.32Para conter essas forças destrutivas e possibilitar a convivência coletiva, a humanidade criou as regras sociais e morais, que impõem limites à expressão das pulsões. Assim, o sujeito precisa reprimir parte de seus impulsos para viver em sociedade a um preço pago pela segurança e pela organização civilizatória (Freud,1930/2010).

p.32No entanto, essa repressão necessária gera um mal-estar: o conflito entre o desejo individual e as restrições impostas pela cultura. Freud explica que a civilização se constrói sobre a renúncia instintual; ao mesmo tempo em que protege, ela também oprime. O resultado é que o ser humano, ao buscar a vida em comum, inevitavelmente enfrenta o sofrimento psíquico decorrente da limitação de suas pulsões (Freud,1930/2010).

p.33Destaca-se como exemplo as pulsões sexuais e agressivas que buscam satisfação imediata. Contudo, para que seja possível conviver em grupo e manter a civilização, o indivíduo precisa recalcar (reprimir) esses desejos, isto é, impedir sua expressão direta, desviando ou sublimando a energia psíquica em atividades socialmente aceitas (como o trabalho, a arte, a religião, a moral, etc.) (Freud,1930/2010).

p.33Esse recalque do desejo é o que torna possível a vida civilizada, mas também é a origem do mal-estar que sentimos, pois o que é reprimido não desaparece: continua atuando no inconsciente, gerando sintomas, angústia e conflito interno. Assim, a moral e as normas sociais protegem a sociedade, mas custam ao sujeito sua plena satisfação (Freud,1930/2010).

p.33Neste contexto, a ética na psicanálise não é praticar e reafirmar a moral estabelecida pela sociedade, ou seja, as regras, as leis, as normas etc. Mas, é considerar a natureza de seu objeto, o inconsciente e o sexual.

p.33Portanto, são nestes termos que Lacan propõe uma ética a partir dos referenciais da psicanálise, que dê um tratamento adequado à concepção de sujeito proposto pela teoria: um sujeito portador de um inconsciente, de desejos sexuais avessos à moral e, deste modo, submetidos a um conflito moral por excelência - o recalque, condição necessária para a humanização do sujeito e, ao mesmo tempo, fonte de seu padecimento. Neste sentido, a condição imposta por Freud à subjetividade civilizada passa por este paradoxo sem solução possível: tornar-se sujeito é passar do instinto à pulsão, onde não existe objeto capaz de supri-la. O sujeito deve agora suportar a falta, inaugurada no psiquismo desde suas primeiras formas de obtenção de prazer: o sujeito é, a partir de então, um sujeito de desejo (Júnior, 2008, p. 138).

p.34Para Lacan (2008), a ética em psicanálise consiste em investigar de que modo a moral atua na formação do sintoma, especialmente nos pontos em que ela se manifesta como recalque. Isso significa que as normas morais influenciam diretamente os modos pelos quais o sujeito busca satisfazer seus desejos, conduzindo à criação de formas sublimadas de prazer. Ainda que essas expressões pareçam socialmente aceitáveis ou elevadas, sua origem continua enraizada na sexualidade que estrutura o inconsciente.

p.34Sigilo

p.34Para Ernesto La Porta (2016), o sigilo é um pilar ético fundamental da prática psicanalítica, pois sustenta a confiança entre o analista e o analisando. É o sigilo que constrói o vínculo de confiança e o espaço de verdade entre o analista e o analisando. O sigilo vai além de uma simples norma profissional, representa a expressão da ética e da responsabilidade subjetiva do psicanalista diante do sofrimento do outro.

p.35O analista, ao acolher o inconsciente do paciente, deve assegurar que tudo o que é dito permaneça protegido, para que o processo analítico possa se desenvolver de forma autêntica e segura.

p.35[.] o sigilo profissional, pelo menos em minha vivência, em minha prática, é absoluto. Não dou nem o nome das pessoas que se tratam comigo. Se uma paciente me diz que veio indicada por uma paciente minha, não digo que ela é minha paciente. Se ela insiste, digo: “Bom, se ela disse, ela disse para você, não posso falar nada, não posso dizer nem sequer se ela está aqui comigo ou não”. Quer dizer, é um respeito absoluto. Até, a partir disso - se fulano está em análise comigo ou não -, já começa o sigilo profissional. É muito menos falar para outro colega o que está se passando com uma paciente. Por exemplo, se um analista está analisando a mulher de um paciente meu, atualmente, quem me conhece, já sabe que nós não vamos trocar ideia sobre aquilo. Às vezes, sai um palpite do outro lado, mas não respondo. Não tem retorno (La Porta, 2016, p. 6).

p.35De acordo com La Porta (2016), o sigilo é princípio moral, e não apenas como dever técnico ou jurídico. “Porque o sigilo profissional é fundamentalmente uma questão de ética. Ética do psicanalista” (La Porta,2016, p. 5). Para o autor o psicanalista deve agir com base em uma ética interior, sustentada pela verdade e pela escuta respeitosa do inconsciente. O sigilo, portanto, é parte integrante da ética analítica e reflete o compromisso ético do analista com a confidencialidade e com a dignidade do sujeito.

p.35O sigilo é uma manifestação da ética e da verdade e não somente uma obrigação profissional. O autor diferencia o sigilo ético, baseado na responsabilidade e respeito ao sujeito, do sigilo protetor, que poderia encobrir condutas antiéticas dentro das instituições psicanalíticas.

p.36Segundo La Porta (2016), o sigilo começa no próprio sujeito, que guarda inconscientemente aspectos de sua história recalcada, e que o analista deve zelar para que o espaço analítico permaneça seguro e inviolável. Entretanto, o sigilo não pode servir para acobertar práticas antiéticas, a ética psicanalítica exige posicionamento e verdade, mesmo diante de conflitos institucionais. Assim, O sigilo é expressão da ética do cuidado e da verdade, e não um instrumento de silêncio cúmplice.

p.36Acho que tem que se distinguir entre sigilo e proteção. Se o indivíduo, depois de determinadas situações, guarda sigilo é uma questão da ética dele. Mas, depois de as coisas ficarem muito escancaradas, proteger essa pessoa, cercar de um véu de proteção, isso não, isso não pode. E isso consta inclusive de um relatório da Associação Médica Brasileira, em que um analista que era presidente da Internacional, fazendo um relatório sobre o tempo em que foi presidente, disse: “Percorrendo diversos países, principalmente da América Latina, onde tinham acontecido várias coisas, por regimes militares, a coisa mais grave que houve foi um analista proteger seu analisando, com véu de proteção, etc. e tal”. Ele declara que houve então uma erupção de um grupo que opôs. Aos poucos, foi se formando um grupo, que se opôs (La Porta, 2016, p. 15-16).

p.36Jamais deve-se utilizar o sigilo para encobrir condutas antiéticas ou imorais dentro das instituições psicanalíticas, a cumplicidade fere a própria essência da ética. O sigilo pode ser mantido, mas proteger e continuar a análise de uma pessoa que está sob suspeita de atos ilegais, imorais, antiéticos não é ser um Psicanalista ético.

p.37A ética do sigilo não deve ser confundida com a omissão diante de práticas antiéticas. Quando o sigilo é usado para esconder erros, ele deixa de ser ético e se torna uma forma de cumplicidade. O dever ético do psicanalista é manter a confidencialidade apenas enquanto esta servir à integridade do sujeito e da prática analítica, jamais deve-se manter o sigilo à proteção de condutas impróprias.

p.37Segundo La Porta (2016) o verdadeiro sigilo é aquele que serve à ética e à verdade, sustentando a confiança e o respeito entre analista e analisando, e não aquele que acoberta faltas morais ou institucionais.

p.37(Clique no + ao lado esquerdo para visualizar todo o conteúdo)

Desejos partem da libido:

todos os desejos dos seres humanos parte da libido, da sensação de prazer, a qual acontece desde a infância. Freud (1911/2010) explica que o princípio de prazer é o modo mais primitivo de funcionamento da mente humana.

Sigilo:

o sigilo começa no próprio sujeito, que guarda inconscientemente aspectos de sua história recalcada, e que o analista deve zelar para que o espaço analítico permaneça seguro e inviolável. Entretanto, o sigilo não pode servir para acobertar práticas antiéticas.

Moral gera mal-estar:

a moral na sociedade é um o problema que gera mal-estar, pois a vida em sociedade exige a repressão de parte dos impulsos e desejos inconscientes dos seres humanos. O ser humano é movido por pulsões, forças internas que impulsiona o psiquismo a buscar satisfação, a qual atua no inconsciente do sujeito e tem um objeto variável.

Pulsões:

as pulsões humanas se organizam em duas forças fundamentais: as pulsões de vida (Eros) e as pulsões de morte (Thanatos). As pulsões de vida buscam preservar, unir e criar vínculos são responsáveis pela conservação da espécie, pelo amor, pela cooperação e pela formação da cultura. Já as pulsões de morte expressam a tendência à destruição, à agressividade e ao retorno ao estado inorgânico, manifestando-se em comportamentos como violência.

p.38Abstinência

p.38O princípio da abstinência é uma regra ética fundamental da prática psicanalítica, estabelecida por Freud em seu texto Observações sobre o amor de transferência, publicado pela primeira vez em 1915 (Freud, 1915/2010). Segundo Freud (1915/2010), a transferência é a repetição de sentimentos e desejos infantis dirigidos ao analista.

p.38Na psicanálise a transferência é essencial para o processo terapêutico ao mesmo tempo que é inevitável. Freud (1915/2010) alertou que quando esses sentimentos tomam a forma de amor de transferência, o analista deve manter a postura de abstinência, ou seja, não deve corresponder e nem rejeitar de forma pessoal o afeto do paciente.

p.38O objetivo da abstinência é impedir que o analista satisfaça diretamente os desejos do paciente. Essa regra visa preservar o espaço de elaboração psíquica e manter o desejo em movimento, evitando que o processo analítico se transforme em uma relação de satisfação imediata ou de dependência afetiva (Quinet, 2003).

p.39Ao pensar o tratamento analítico no campo da linguagem e na função da fala, podemos traduzir o princípio fundamental da abstinência princípio ético e técnico- afirmando que só há análise na medida em que a demanda e o desejo do analisante se mantêm insatisfeitos. É pela não resposta à demanda que surgem os significantes ligados à demanda inconsciente (necessidade significantizada) através dos quais o desejo podese articular. Uma das formas de o analista não responder à demanda é calar - o silêncio do analista -, pois essa é a única possibilidade de fazer emergir esses significantes na associação livre (Quinet, 2003, p. 99).

p.39Neste contexto, a abstinência é uma postura ética, pois o analista renuncia ao gozo e à satisfação própria, mantendo-se numa posição de escuta e de não interferência. A ética da abstinência ocorre porque permite que o sujeito se confronte com a falta, elemento constitutivo do desejo, e possibilita que o inconsciente se manifeste livremente (Quinet, 2003).

p.39A ética da psicanálise não busca o bem-estar ou a adaptação social, mas a verdade do desejo. A abstinência tem a função de sustentar o espaço em que o sujeito possa assumir responsabilidade por seu próprio desejo, sem que o analista imponha valores ou direções externas (Quinet, 2003).

p.39Assim, o princípio da abstinência se configura como uma ética do não-saber e da não-satisfação, sustentando a posição do analista como aquele que não responde ao desejo do outro, mas que o escuta, permitindo sua elaboração simbólica (Quinet, 2003). De acordo com Freud (1915/2010, p. 187) “devemos ter o cuidado de não satisfazer, durante o tratamento, as exigências pulsionais do doente, mas deixá-las subsistir na sua intensidade, como forças que motivam e impulsionam o trabalho psicanalítico”.

p.40O clínico, seja analista ou não, não é um anódino observador do paciente, pois por meio da transferência pode ser incluído na trama com a qual o sujeito envolve o real de seu sofrimento, seja no sintoma, seja no delírio. O que o sujeito faz de seu interlocutor, em que lugar o situa, de onde recebe seu dizer são critérios a serem levados em conta tanto no diagnóstico, no qual o próprio clínico está incluído, quanto na orientação terapêutica. O amor de transferência é a única vereda que dá uma chance ao sujeito de advir como desejo de saber (Quinet,

p.40Deste modo, a abstinência impede a descarga direta do desejo, mantém o sintoma e o conflito em nível simbólico, para que possam ser trabalhados e interpretados. A análise não deve oferecer satisfação imediata, pois o objetivo não é substituir uma forma de prazer por outra, mas permitir que o sujeito elabore seu desejo de forma consciente (Freud, 1915/2010).

p.40A regra da abstinência é uma exigência ética e técnica que protege o campo analítico de distorções afetivas, mantendo o analista numa posição de escuta e de não correspondência. Ela assegura que o tratamento seja guiado pela busca da verdade do inconsciente, e não pela satisfação pulsional (Freud, 1915/2010).

Saiba mais

p.40Na psicanálise, quando se fala em “lugar sem sujeito”, “abstinência” e “neutralidade”, está se falando menos de uma atitude moral do analista e mais de uma posição discursiva. A análise do discurso (no sentido que se aproxima de Lacan, mas também de uma leitura enunciativa) ajuda a

p.41mostrar isso: o que o analista faz é ocupar um lugar no discurso que não compete com o sujeito, não o coloniza e não responde por ele. Para saber mais, acesse:

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p.41Neutralidade

p.41Freud (1912/2010) escreveu o texto “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, no qual definiu a neutralidade como uma atitude ética e técnica essencial do analista. Para Freud (1912/2010) o analista deve manter-se em uma posição de escuta atenta, livre de julgamentos morais, desejos de cura imediata ou identificação pessoal com o paciente.

p.41É na prática da escuta flutuante e livre de preconceitos que a neutralidade se faz presente, é importante ressaltar que a neutralidade não significa frieza ou indiferença, mas uma postura ética que permite que o inconsciente do analisando se manifeste sem interferências (Freud, 1912/2010).

p.41Neste contexto, “o médico deve ser opaco para o paciente e, tal como um espelho, não mostrar nada além do que lhe é mostrado” (Freud, 1912/2010, p. 155). O analista deve renunciar à própria vontade de conduzir o tratamento segundo suas crenças, valores ou desejos, evitando impor direções externas ao paciente. Assim, ele se coloca como um espelho reflexivo, permitindo que o analisando reconheça seus próprios conteúdos inconscientes.

p.41A prática da neutralidade é uma ética do não-julgamento e da escuta pura, em que o analista não satisfaz as expectativas afetivas do analisando, não dá conselhos e nem dirige o discurso. Essa postura garante que a análise permaneça centrada no desejo do paciente, e não na moralidade ou nas opiniões do analista (Freud, 1912/2010).

p.41Manejo da transferência e contratransferência

p.42Freud escreveu o texto “A dinâmica da transferência” em 1912, no qual explica que a transferência é um fenômeno inevitável e fundamental do processo psicanalítico. Consiste na reedição de sentimentos, desejos e conflitos inconscientes originados nas relações infantis, que são deslocados para a figura do analista.

p.42De acordo com Freud (1912/2010), o paciente, durante a análise, repete e atualiza suas vivências emocionais no vínculo com o analista, atribuindo-lhe papéis semelhantes aos de figuras significativas de sua história (pais, cuidadores, etc.). Esse movimento é eticamente central, porque a análise só se torna possível quando o analista reconhece a transferência, mas não responde a ela de forma pessoal.

p.42A transferência cria uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para outra se efetua. A nova condição assumiu todas as características da doença, mas representa uma enfermidade artificial, que é curável por meio do trabalho terapêutico (Freud, 1912/2010, p. 118).

p.42É oportuno ressaltar que a transferência ocorre o tempo todo, ela não acontece exclusivamente na prática clínica da Psicanálise. A transferência acontece com os amigos, namorados, com o chefe. Entretanto, ela é mais intensa na análise porque é o momento em que o analisando presta atenção em sua fala e pode ser curado pela transferência. Porque a transferência é o veículo de cura para que a análise aconteça, ou uma resistência Freud (1912/2010).

p.42Portanto, a prática ética da transferência exige que o analista não se deixe capturar pelos afetos transferidos, mantendo sua posição de neutralidade e abstinência. O analista deve interpretar a transferência e utilizá-la como instrumento terapêutico, sem jamais satisfazer as demandas amorosas, agressivas ou idealizadoras do paciente.

p.43Quando o analista identifica resistência precisa interpretá-la e proporcionar mais elementos para que ela aconteça. A resistência pode ter origem na introversão da libido, quando o investimento é direcionado para dentro, não para fora, não na análise. Essa libido se volta para dentro e continua inconsciente, diminui a parte que se torna consciente, com isso amplia as fantasias e vai entrando em um curso regressivo, isso atrapalha o curso da análise, e acontece por causa de algum conflito, entre o desejo e o mundo externo. O tratamento precisa entender esse caminho regressivo para conseguir reverter e fazer ele voltar à realidade. Freud fala de um combate contra a regressão da libido Freud (1912/2010),

p.43A segunda fonte de resistência é a atração do inconsciente, o id atua como um imã, que atrai conteúdo do ego e impede que os conteúdos sejam verbalizados e expressos. Ou seja, quando Freud fala em “atração do inconsciente” como uma fonte de resistência, ele faz referência ao modo como o inconsciente tenta manter seus conteúdos ocultos, resistindo à sua passagem para o consciente.

p.43Freud em seu texto “O inconsciente” escrito em 1915, explica que a mente humana é composta por instâncias psíquicas, o id, o ego e o superego. O id (ou isso) é a parte mais primitiva e pulsional da mente, que contém os desejos recalcados e as pulsões inconscientes. Ele busca apenas o princípio do prazer e ignora a realidade e a moral. Já o ego funciona segundo o princípio da realidade, tentando equilibrar as exigências do id com as do mundo externo e do superego (as normas morais e ideais internalizadas) (Freud, 1915/2010).

p.43Quando Freud diz que o id funciona como um ímã, significa que ele atrai e retém conteúdos (desejos, fantasias, lembranças) que o ego considera inaceitáveis ou ameaçadores. O ego, para proteger-se, utiliza o recalque, um mecanismo de defesa que empurra esses conteúdos para o inconsciente (Freud, 1915/2010).

p.43Segundo Freud, (1915/2010, p. 199), “o recalcado não se deixa expulsar facilmente; ele exerce uma atração constante sobre o que é vizinho no sistema pré-consciente e tende a levá-lo a seguir o mesmo destino”. O inconsciente atua como uma força de atração, o que está recalcado puxa novos conteúdos para si, ampliando o campo da repressão.

p.43No entanto, o inconsciente não permanece passivo: ele exerce uma força de retorno. Segundo Freud, a força do retorno é a compulsão à repetição, é a tendência que o inconsciente tem de tentar se expressar novamente, seja por meio de sonhos, atos falhos, sintomas ou transferência (Freud, 1915/2010).

p.43Por isso, a resistência não vem apenas do ego (que tenta impedir a lembrança dolorosa), mas também do próprio inconsciente, que quer preservar sua forma de funcionamento, sem ser submetido à censura da consciência.

p.44Freud (1912/2010) destaca que a transferência não é um obstáculo, mas sim o motor do processo analítico. E por meio da transferência que o inconsciente se atualiza na relação e pode ser interpretado. O manejo ético da transferência exige responsabilidade e rigor técnico, preservando o espaço da análise como campo simbólico, e não relacional no sentido afetivo comum.

p.44A compreensão do fenômeno da transferência em psicanálise só é possível quando o colocamos em relação ao conceito de resistência. Freud (1912/2010) demonstra que a transferência é uma reedição de protótipos infantis, ou seja, uma repetição dos vínculos afetivos e pulsionais originários da infância, agora deslocados para a figura do analista. Esses afetos inconscientes, ao emergirem na relação analítica, podem tanto favorecer quanto dificultar o processo terapêutico.

p.44A transferência positiva manifesta-se quando os sentimentos dirigidos ao analista são afetivos, amistosos e confiantes, possibilitando a criação de um laço que favorece a elaboração psíquica. Freud aponta que essa forma de transferência é indispensável ao tratamento, pois cria as condições de confiança necessárias para que o paciente se entregue ao processo analítico e confronte seu inconsciente.

p.44Contudo, a transferência positiva também pode assumir um caráter erótico inconsciente, transformando-se em uma resistência ao tratamento. Nesses casos, o amor transferencial não contribui para a cura, mas serve como um mecanismo de defesa, desviando a energia psíquica do trabalho analítico e dificultando a interpretação.

p.44Já a transferência negativa, marcada por afetos hostis, raiva, ódio ou desejo de destruição, é uma manifestação da pulsão de morte e constitui uma das formas mais intensas de resistência. Quando o paciente transfere esses sentimentos ao analista, a relação terapêutica pode se tornar um campo de conflito, revelando conteúdos recalcados e impulsos destrutivos que se opõem à elaboração psíquica.

p.44Assim, tanto a transferência positiva quanto a negativa devem ser compreendidas como modos pelos quais a resistência se expressa. O papel ético e técnico do analista é reconhecer e interpretar essas manifestações, sem agir sobre elas, de modo a permitir que o sujeito tome consciência de seus afetos inconscientes e os elabore simbolicamente.

Freud introduz o termo de contratransferência em 1910, no texto “As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica”. Nestes escritos, Freud (1910/ 2010) adverte que o analista, assim como o paciente, não está imune as forças inconscientes.

Segundo Freud (1910/2010), o analista pode ser afetado emocionalmente pelo material trazido pelo paciente. Desta forma, os afetos devem ser reconhecidos e dominados pelo analista para que não interfiram na técnica e nem distorça a escuta analítica.

Ainda conforme Freud (1910/2010), a contratransferência é o conjunto de sentimentos, fantasias e reações inconscientes do analista em relação ao paciente. Surge em resposta à transferência do analisando, ou seja, aos afetos que o paciente projeta sobre o analista durante o tratamento.

p.45De acordo com Freud (1910/2010, p.150), “não devemos deixar de reconhecer que todo analista tem de continuar submetendo-se ao controle da sua própria análise, a fim de dominar em si mesmo a contratransferência, que constitui um perigo real para o trabalho”. A ética da contratransferência está na capacidade do analista de manter sua própria análise em dia, isto é, conhecer seus próprios conteúdos inconscientes e resistências.

p.45Somente um analista que analisou a si mesmo pode sustentar uma postura ética, neutra e abstinente, sem confundir seus sentimentos com os do paciente. Portanto, a contratransferência não é algo a ser eliminado, mas algo a ser reconhecido e manejado eticamente.

p.45Quando o analista se conscientiza de suas reações internas, ele pode utilizá-las como instrumento de compreensão do vínculo transferencial, sem agir sobre elas nem responder emocionalmente ao analisando. A ética da contratransferência consiste em o analista manter o lugar de escuta e de não reciprocidade afetiva, para que o espaço analítico permaneça voltado ao sujeito do inconsciente e não as emoções do terapeuta.

Figura da página 47
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Figura da página 49

p.49Conclusão

p.49Nesta unidade vimos que a ética, na psicanálise, não nasce de um código de conduta externo, mas do próprio funcionamento do inconsciente descrito por Freud. Ao mostrar o conflito entre desejo e exigências da realidade, ele evidencia que toda subjetividade é atravessada por renúncias pulsionais e pelo recalcamento, e que o sofrimento que chega ao consultório muitas vezes é o efeito dessa operação. Assim, compreender desejo, pulsão, recalcamento e malestar é condição para compreender também por que a psicanálise precisa de uma ética própria.

p.49Avançamos, então, para Lacan, que retoma Freud para dizer que essa ética não é uma moral de adaptação, mas uma ética do desejo: o analista não está ali para dizer ao sujeito o que é “bem” ou “mal”, e sim para sustentar um lugar em que o sujeito possa se responsabilizar pelo que deseja e pelo que de fato repete. Daí o sentido dos princípios clínicos que estudamos - sigilo, abstinência, neutralidade, manejo da transferência e da contratransferência - todos voltados a proteger o espaço do inconsciente e a impedir que a análise se reduza a aconselhamento, pedagogia ou alívio imediato.

p.49Como todo estudo de ética psicanalítica, o que fizemos aqui é um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, um ponto de partida. Para aprofundar, vale ler os textos técnicos de Freud sobre técnica, os seminários de Lacan (especialmente o 7 e011)e autores contemporâneos que discutem clínica, laço social e sofrimento no trabalho. Quanto mais o estudante voltar às fontes e confrontar clínica e teoria, mais conseguirá ver que a ética da psicanálise é viva, atual e necessária para pensar o sujeito na cultura.

p.50Referências Bibliográficas

p.50Livro

p.50ANDRADE JÚNIOR, Moisés. Ética da psicanálise e desejo do analista: bases conceituais do desejo do analista na ética do Seminário VII de Lacan. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2008.

p.50FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

p.50FREUD, Sigmund. As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica (1910). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XI. Rio de Janeiro: Imago, 2010. p. 145-156.

p.50FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911). In: FREUD, Sigmund. Escritos sobre a psicologia do inconsciente (1901- 1914). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

p.50FREUD, Sigmund. O inconsciente (1915). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

p.50FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

p.50FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor de transferência (1915). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

p.50FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

p.50LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

p.50LA PORTA, Ernesto. O sigilo do psicanalista. Intervenções de MD Magno. Tranz: Revista de Psicanálise, Rio de Janeiro, ed. 11, dez. 2016. Disponível em: http://www.tranz.org.br. Acesso em: 23 out. 2025.

p.51QUINET, Antonio. A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Unidade III

Relação entre ética, responsabilidade, desejo do analista e o respeito à singularidade do sujeito

p.51Introdução

p.51Este capítulo examina a articulação entre ética, responsabilidade e desejo do analista a partir da orientação lacaniana, mostrando que a prática psicanalítica só se sustenta quando leva em conta a singularidade de cada sujeito. Partimos da ideia de que quem procura análise chega com uma demanda explícita, mas por trás dela há sempre algo não dito, uma busca de amor e de sentido que se dirige ao Outro como lugar do significante. Ouvir essa demanda sem reduzi-la ao pedido consciente é o primeiro gesto ético da clínica.

p.51Em seguida, o texto apresenta o conceito de sujeito suposto saber, fundamental para a transferência: o analisante supõe que o analista sabe algo sobre o seu inconsciente e, por isso, fala. Contudo, a ética exige que o analista não se identifique com esse saber, mas o sustente como lugar vazio, de modo que o próprio sujeito possa produzir o seu saber. Assim, a função do analista não é atender à demanda, e sim conduzi-la ao desejo, fazendo o sujeito confrontar a falta que o causa.

p.51Por fim, o capítulo mostra que essa posição ética se prolonga na noção de “um lugar sem sujeito”: o analista ocupa simbolicamente o lugar do Outro, mas sem confundi-lo com sua pessoa, recusando o gozo e o poder que a transferência lhe oferece. Isso permite que, ao longo do processo e sobretudo no fim da análise, o sujeito deixe de apoiar-se no Outro suposto saber e assuma responsabilidade pelo próprio desejo. Trata-se, portanto, de pensar uma clínica em que ética e técnica caminham juntas.

p.52Demanda e sujeito suposto saber

p.52Segundo Lacan (2008), todo sujeito que busca a análise parte de uma demanda, porém a demanda que o paciente apresenta na clínica nunca se reduz ao que é dito explicitamente, ou seja, de forma consciente. Por trás do que o paciente solicita, como “quero me curar”, “quero ser feliz”, há uma demanda de amor, que se dirige ao Outro enquanto portador do significante.

p.52Essa demanda é o que introduz o sujeito no campo da linguagem e o coloca na relação com o desejo:

p.52E, por outro lado, muito particular, como é nosso trabalho de todos os dias, ou seja, a maneira pela qual temos de responder na experiência ao que lhes ensinei a articular como uma demanda, demanda do doente à qual nossa resposta confere uma significação exata — uma resposta da qual devemos conservar a mais severa disciplina para não deixar adulterar o sentido, em suma profundamente inconsciente, dessa demanda (Lacan, 2008, p. 11-12).

p.52Deste modo, a ética da psicanálise não busca satisfazer a demanda, mas ouvir o que nela se articula como desejo. A análise trabalha na passagem da demanda ao desejo, é nesse deslocamento que o sujeito pode se responsabilizar pelo seu gozo e pela sua posição no discurso.

p.52A função do analista não é responder diretamente à demanda, mas conduzi-la à dimensão do desejo. Ao não satisfazer a demanda, o analista permite que o sujeito se confronte com a falta e com a causa de seu desejo, o que constitui o movimento ético da análise.

Figura da página 53

FIGURA 1 - Psicanálise e a escuta

Fonte: Freepik.

p.53É a partir dessa demanda dirigida ao analista que se institui o sujeito suposto saber: o analista é colocado na posição daquele que “sabe algo sobre o inconsciente do sujeito”. E aquele a quem se atribui o saber sobre o próprio desejo. Essa suposição é o que sustenta a transferência e permite o trabalho analítico.

p.54A demanda se encontra em tudo que o analisante diz, quaisquer que sejam seus ditos eles tomam a forma de uma demanda. A demanda é, portanto, a própria cadeia de significantes que se dirige ao Outro, como o lugar de significantes (A), o lugar do código, de onde virá a resposta trazendo ao sujeito sua própria mensagem de forma invertida, sob a forma de significado do Outro (s(A)), como verificamos no grafo do desejo. Ao Situar o analista no lugar do Outro, o analisante, com sua fala-demanda, espera dele receber a interpretação que diga o sentido do que ele está dizendo. A fala do analisante é, em si, demanda de interpretação, demanda de sentido (Quinet, 2003, p. 89).

p.54Segundo Lacan (1964/1998, p. 233) “a transferência é o amor dirigido ao saber. É o amor endereçado a aquele que se supõe saber” A transferência é, essencialmente, o “amor endereçado ao saber”. Assim, o analista ocupa o lugar simbólico do sujeito suposto saber, e sua ética exige que ele não se confunda com esse lugar, ou seja, que ele não “encarne” o saber, mas sustente o vazio onde o sujeito possa produzir o seu próprio.

p.54Portanto, o sujeito suposto saber não é o analista real, mas uma posição simbólica sustentada pela transferência. O analista deve ocupar esse lugar sem se identificar com ele, preservando sua função ética de não responder a partir do saber, mas de fazer surgir o desejo como questão para o analisando.

p.55O que chamo ceder de seu desejo acompanha-se sempre no destino do sujeito- observarão isso em cada caso, reparem em sua dimensão de alguma traição. Ou o sujeito trai sua via, se trai a si mesmo, e é sensível para si mesmo. Ou, mais simplesmente, tolera que alguém com quem ele se dedicou mais ou menos a alguma coisa tenha traído sua expectativa, não tenha feito com respeito a ele o que o pacto comportava, qualquer que seja o pacto, fausto ou nefasto, precário, de pouco alcance, ou até mesmo de revolta, ou mesmo de fuga, pouco importa (Lacan, 2008, p. 375).

p.55Essa posição está em harmonia com o princípio ético em Lacan, considerado princípio ético lacaniano, que é sintetizado na máxima: “não cedas de teu desejo”. Esta ética exige que o analista não se identifique com o ideal do paciente, nem ceda ao apelo de responder de forma imaginária à sua demanda.

p.55O sujeito vem à análise com uma demanda que se apresenta em sua dimensão imperativo; e quando se estabelece a transferência ela aparece, escamoteada ou não, como exigência amorosa. O desejo, ao se apresentar como pergunta, faz surgir para o sujeito algo que o faz questionar-se, pois o desejo é um enigma. É função do analista abrir essa dimensão do desejo - o que não é nada evidente, pois o sujeito, pelo efeito do recalque, não quer saber seu desejo. Dimensão que surge, por exemplo, quando o analisante se pergunta sobre o que o analista quis dizer ou por que interrompeu a sessão naquele momento determinado. O desejo do Outro surge na análise, pela via de transferência, como interrogação sobre o desejo do analista [...] (Quinet, 2003, p.101).

p.56Para Jacques Lacan o desejo não é uma coisa ou uma força que simplesmente “move” o sujeito, como em Freud, mas uma questão que o habita: “O que o Outro quer de mim?” ou “O que eu quero, afinal?”. O desejo é estruturado como uma pergunta, e essa pergunta só se formula porque o sujeito está inserido na linguagem e no campo do Outro, que é a instância simbólica que lhe antecede (Quinet, 2003).

p.56A demanda é a forma como o sujeito tenta responder a essa falta, pedindo algo ao Outro, amor, reconhecimento, sentido, mas o desejo sempre escapa ao que é demandado. Assim, o papel ético do analista é não responder à demanda do sujeito, mas sustentar o enigma do desejo, permitindo que o próprio sujeito se confronte com o que o causa. O analista não dá respostas, mas mantém a pergunta viva, porque é nesse movimento interrogativo que o sujeito pode se reencontrar com o seu desejo inconsciente (Lacan, 2008).

p.56O conceito de “sujeito suposto saber” é fundamental para a transferência e para a ética da psicanálise. Quando o sujeito inicia a análise, ele supõe que o analista “sabe” algo sobre seu sofrimento, ou melhor, que o analista detém o saber sobre o seu inconsciente. Essa suposição sustenta a transferência. Para Lacan (2008), o desejo do analista é a condição de possibilidade da análise. Ele não é o desejo pessoal do analista, mas uma função ética e estrutural: é o que permite que o analista não responda à demanda do paciente, mas sustente o espaço do desejo, ou seja, o ponto de falta que move o sujeito à fala.

p.56Conforme afirma Lacan (2008), a análise é a experiência que voltou a fazer surgir, no mais alto grau, a função fecunda do desejo como tal. Assim, pode-se dizer que, na articulação teórica de Freud, a presença da dimensão moral não se enraíza em outro lugar senão no próprio desejo. É da energia do desejo que se depreende a instância do que se apresentará, no termo de sua elaboração, como censura.

p.56O desejo do analista deve operar como causa de desejo no sujeito, e não como um ideal. Essa função é o que impede que o analista se torne um mestre moral ou um técnico de adaptação, mantendo-se ético em relação ao inconsciente e ao desejo. A ética da psicanálise não é a de um bem supremo, mas a de não ceder ao seu desejo. A ética do analista não é normativa nem adaptativa, mas está centrada em sustentar o desejo como falta, e não em preenchê-lo (Quinet, 2003).

p.57Um lugar sem sujeito

p.57O Outro é um lugar, pois o Outro não é ninguém, sendo o lugar equivalente ao lugar psíquico onde se passa o sonho, que Freud denomina de outra cena, a partir dos estudos de Fechner. Assim, o grande Outro representa um lugar sem sujeito, é o lugar do código para o sujeito, é neste lugar que o inconsciente se atualiza na transferência.

p.58Na livre associação de ideias se efetua a transferência com o analista e conforme o sujeito dirige a sua fala, ou seja, a sua cadeia significante para o analista que se situa para ele no lugar do Outro, o analista paga com sua pessoa. É pela transferência que o analista é literalmente despossuído dela.

p.58O analista, prestando-se a esse lugar do Outro para o sujeito, faz com que, através da associação livre, o inconsciente se presentifique e possa ser decifrado pelo próprio sujeito. Um paciente em análise me dizia: “Eu sei que você não tem aí nenhuma função, a única coisa que você faz é me fazer falar; aí eu pensei, cá comigo, que podia continuar sozinho. Até que entendi que a sua função é essencial, pois é nos momentos em que estou em casa pensando na andlise, ou vindo para cá, ou aqui na análise, que começo a pensar as minhas coisas.” O sujeito em associação livre é um sujeito dirigindo-se ao analista cuja presença nas sessões é condição sine qua non para fazer o inconsciente existir (Quinet, 2003, p. 45).

p.58O Outro de que fala a psicanálise não se confunde com a pessoa real do analista. O analista, enquanto indivíduo concreto, homem ou mulher, é apenas o semelhante que escuta a fala do sujeito.

p.58Na experiência analítica, o analista ocupa um lugar simbólico: o lugar do Outro, isto é, o lugar do inconsciente. Nesse papel, ele representa todos os Outros significativos que marcaram a história do sujeito. Por exemplo, pais, figuras de autoridade, amores, perdas, referências culturais (Quinet, 2003).

p.58A pessoa do analista, enquanto semelhante, pertence à dimensão do imaginário: ele é percebido pelo analisando como um igual, podendo ser também objeto de rivalidade, identificação ou espelhamento, como um reflexo de si mesmo (Quinet, 2003).

p.59Essa distinção entre Outro e outro é essencial para compreender a transferência e a definição lacaniana do inconsciente como discurso do Outro. O que emerge na análise não é apenas uma relação entre duas pessoas, mas o aparecimento, na fala, desse campo simbólico que ultrapassa o indivíduo, o campo do inconsciente (Quinet, 2003).

p.59É necessário desvincular o lugar do analista da pessoa que ele atende em sua clínica. O analista não se confunde com o sujeito que o procura; ele se define, antes, pela posição que ocupa, a do desejo do analista. Durante o processo analítico, o analisante ou paciente vai, por meio da demanda e da linguagem, reconstruindo sua relação de dependência com o desejo do Outro, a mesma relação que sustenta seu sintoma. Ao analista espera-se que responda a essa demanda a partir de outro lugar, diferente do que o paciente o coloca.

p.59Mesmo que o analisante veja o analista como seu Outro, ou como alguém que detém algo precioso (agalma), e espere de suas palavras um preenchimento para sua falta, o analista recusa ocupar esse lugar. De acordo com Lacan (2008), o desejo do analista é um desejo prevenido, porque o analista sabe e esse saber não se transmite. Não existe um significante capaz de preencher a falta do Outro. A demanda que o sujeito dirige ao analista é impossível de ser totalmente satisfeita.

p.59Por isso, a análise pessoal do analista é fundamental em sua formação: é preciso que ele tenha atravessado sua própria fantasia e aprendido a suportar a falta, sem precisar mascará-la com a crença na existência de um Outro completo. Assim, O fim de uma análise produz um sujeito que é capaz de sustentar o desejo, de abrir mão do gozo e de ocupar o lugar de escuta sem ceder à tentação de completar o outro.

p.59O analista não responde como o Outro que sabe ou que pode preencher a falta, mas a partir da própria falta, ele fala a partir de seu semblante de objeto a, isto é, como causa do desejo, não como seu preenchimento.

p.59Há uma dissimetria radical entre o que o analisante demanda e o que o analista responde: enquanto o primeiro espera algo do Outro que o complete, o segundo responde a partir da posição de causa, sustentando o movimento do desejo.

p.59O analista simula ocupar o lugar do objeto causa para que a análise possa avançar, ele finge sê-lo, sem jamais identificar se totalmente com ele. Caso o analista se identificasse de fato com esse objeto, o risco seria o analisante tornarse dependente dele, pois o veria como fonte e causa de seu próprio desejo.

p.60Portanto, é possível destacar na psicanálise o seu aspecto ético e prático fundamental: se há um Bem implicado no processo analítico, esse Bem pertence ao próprio sujeito. Trata-se do Bem vinculado ao objeto causa do desejo, o objeto a, que, por sua vez, é investido na figura do analista. Assim, o analista assume uma posição ética específica: ser o depositário do desejo do analisante, sem, contudo, responder a ele com aquilo que pertence ao seu próprio inconsciente ou ao seu desejo pessoal.

p.60Conforme afirma Andrade Júnior (2008) o desejo do analista é uma renúncia, é um luto elaborado por um gozo que não tem lugar na prática clínica. O analista reconhece a impossibilidade de realização deste gozo a partir de sua própria experiência analítica. Essa renúncia o protege da ilusão do gozo pleno da Coisa.

p.60Desse modo, o desejo do analista não se manifesta apenas nas palavras ou no discurso estabelecido, mas também nas manobras clínicas que o permitem sustentar essa posição ética. Sua função não é conduzir o sujeito ao bem-estar idealizado, mas possibilitar que ele confronte seu próprio desejo, assumindo a responsabilidade pelo que o faz desejar.

p.60O desejo do analista possui uma função, a de coisa, de lugar do desejo do Outro, jamais deve ser confundido com o desejo de ser analista. Na ética da psicanálise, não é papel do analista determinar o que seria “melhor” ou “mais correto” para o analisante. O desejo de ser analista está ligado à subjetividade de quem escolhe essa profissão, é um querer pessoal, distinto da posição ética exigida pela prática (Andrade Júnior, 2008).

Escutar alguém em análise não é o mesmo que saber conduzir uma escuta analítica. Quando o analista se identifica demais com sua função, tomando-se como o verdadeiro “causador” do processo, ele cai em sua própria fantasia narcisista, que o sujeito em relação ao objeto é a causa de seu desejo (Andrade Júnior, 2008).

Para que a análise cumpra sua função, o analista precisa renunciar a essa identificação e não sustentar sua própria fantasia durante o processo. Somente assim pode abrir espaço para o desejo do paciente, ajudando-o a se deslocar do circuito repetitivo da demanda de amor, que é sempre insaciável (Andrade Júnior, 2008).

p.61Segundo Lacan (2008) o analista e o santo têm um ponto em comum, a capacidade de renunciar ao gozo durante o exercício de sua função. Assim como o santo deve resistir à tentação de gozar de sua posição espiritual, o analista precisa abster-se de gozar de sua posição simbólica na transferência. Para Lacan (2008, p. 377), “[...] é também verdadeira no nível do santo, cuja visada é efetivamente o acesso ao desejo sublime, de modo algum forçosamente o seu desejo, pois o santo vive e paga pelos outros”.

p.61A comparação entre o analista e o santo não tem a intenção de santificar a figura do analista, mas de destacar um ponto em comum entre ambos: a capacidade de renunciar ao gozo durante o exercício de sua função. Assim como o santo deve resistir à tentação de gozar de sua posição espiritual, o analista precisa abster-se de gozar de sua posição simbólica na transferência (Andrade Júnior, 2008).

p.61Embora, como qualquer ser humano, o analista também possua desejos e goze, sua postura ética exige que ele sustente o lugar de causa do desejo do outro, sem se deixar seduzir por fantasias de poder, saber ou amor. No percurso de uma análise, o verdadeiro êxito se dá quando o analista, ao final, torna-se supérfluo, ou seja, quando o sujeito atravessa sua própria fantasia e já não precisa mais do “sujeito suposto saber”. Nesse ponto, o analista deixa de ser a causa do desejo do analisante e passa à condição de resto, de objeto dejeto (objeto o), marca de uma análise eticamente bem conduzida (Andrade Júnior, 2008).

p.61(Clique no + ao lado esquerdo para visualizar todo o conteúdo)

Demanda e sujeito suposto saber:

O conceito de “sujeito suposto saber” é fundamental para a transferência e para a ética da psicanálise. Quando o sujeito inicia a análise, ele supõe que o analista “sabe” algo sobre seu sofrimento, ou melhor, que o analista detém o saber sobre o seu inconsciente.

Um lugar sem sujeito:

O Outro é um lugar, pois o Outro não é ninguém, sendo o lugar equivalente ao lugar psíquico onde se passa o sonho, que Freud denomina de outra cena, a partir dos estudos de Fechner. Assim, o grande Outro representa um lugar sem sujeito, é o lugar do código para o sujeito, é neste lugar que o

inconsciente se atualiza na transferência.

Finais de análise e a produção de um analista:

O final de uma análise ocorre quando o sujeito atravessa sua fantasia fundamental, deixando de sustentar o analista como o Outro suposto saber, aquele a quem dirige suas demandas e em quem deposita o sentido de seu sofrimento.

Sujeito suposto saber:

É a partir dessa demanda dirigida ao analista que se institui o sujeito suposto saber: o analista é colocado na posição daquele que “sabe algo sobre o inconsciente do sujeito”.

p.62Finais de análise e a produção de um analista

p.62Manter o desejo do analista implica refletir sobre o final da análise, pois é nesse ponto que se revela o verdadeiro sentido ético da prática psicanalítica. A ética da psicanálise exige que se defina qual é o fim da análise (Andrade Júnior,2008). Lacan, em sua Proposição de 9 de outubro de 1967, mostra que esse fim se dá quando o analisante deixa de dirigir sua demanda ao analista como se ele fosse o Outro que detém o saber ou a resposta (Lacan, 1967/2003).

p.62Segundo Lacan (1967/2003), o final de uma análise ocorre quando o sujeito atravessa sua fantasia fundamental, deixando de sustentar o analista como o Outro suposto saber, aquele a quem dirige suas demandas e em quem deposita o sentido de seu sofrimento. Nesse momento, o analisante reconhece que o objeto causa de seu desejo (objeto a) é algo irrecuperável, uma falta estrutural que o constitui.

p.63[.] ao termo da relação transferencial, ou seja, quando, havendo-se resolvido o desejo que sustentara em sua operação o psicanalisante, ele não mais tem vontade, no fim, de levantar sua opção, isto é o resto que, como determinante de sua divisão, o faz decair de sua fantasia e o destitui como sujeito (Lacan, 1967/2003, p. 257).

p.63Assim, O fim da análise não é alcançar uma verdade última ou eliminar o sintoma, mas assumir a própria falta como condição de desejo. O analista, então, torna-se supérfluo, e o sujeito pode prosseguir de modo autônomo, agora responsável por seu próprio desejo (Lacan, 1967/2003).

p.63O término de uma análise coincide, então, com o desvanecimento desse Outro, Ou seja, com o momento em que o sujeito reconhece que o objeto causa de seu desejo é algo irremediavelmente perdido, mas que, a partir desse reconhecimento, pode criar e desejar de outro modo, dentro de seus próprios limites. Nesse ponto, a transferência se dissolve, e o analista deixa de ocupar o lugar de suposto saber, encerrando-se o processo analítico (Lacan, 1967/2003).

p.63A manutenção do desejo do analista, em sua dimensão ética, consiste em conduzir o sujeito da demanda ao desejo, isto é, favorecer a passagem da busca de reconhecimento pelo Outro à assunção do próprio desejo. Essa travessia implica a queda do Outro, figura simbólica que antes sustentava a demanda e, consequentemente, o sintoma, entendido por Lacan como resposta ao desejo do Outro (Andrade Júnior, 2008).

p.63Enquanto houver um Outro a quem o sujeito dirige suas demandas, pedindo amor, aprovação ou sentido, o sintoma permanece ativo, pois ele funciona como uma tentativa de manter esse Outro em existência. Quando o sujeito reconhece que esse Outro não existe como instância garantidora de sentido, o sintoma perde seu sustentáculo, abrindo espaço para um novo modo de desejar (Lacan, 1967/2003).

p.64Essa concepção lacaniana dialoga com a teoria freudiana do recalque e da defesa. Freud, na conferência A Dissecção da personalidade psíquica (1933), mostra que o supereu nasce da internalização da autoridade parental. Segundo Freud (1933/1996), o supereu é o herdeiro do complexo de Édipo e se constitui a partir da internalização das figuras parentais, sobretudo da autoridade e das interdições que emanam dos pais.

p.64Nos primeiros anos de vida, a criança não possui uma moral interna; ela obedece aos pais por medo de perder o amor deles e para evitar punições. Essa obediência é inicialmente externa, regulada pela presença real da autoridade. Com o tempo, contudo, essa autoridade é introjetada: o supereu passa a exercer internamente a função que antes era desempenhada pelos pais.

p.64Freud (1933/1996) demonstra que o supereu nasce da internalização da autoridade parental. Nos primeiros anos de vida, a criança é essencialmente amoral: busca a satisfação de seus impulsos sem restrições internas. Nesse período, o controle de sua conduta provém do exterior,dos pais que a orientam por meio de recompensas e punições, reguladas pelo amor e pela ameaça de perdê-lo. Essa relação funda uma ansiedade realística, que mais tarde se transforma em ansiedade moral, quando a autoridade parental é introjetada. O supereu, então, passa a desempenhar dentro do psiquismo o papel antes exercido pelos pais, vigiando, julgando e punindo o ego, tornando-se a instância moral do sujeito.

p.64Assim, o supereu torna-se uma instância psíquica crítica e observadora, que vigia, julga e pune o ego, reproduzindo dentro do sujeito as exigências, ideais e proibições parentais. Ele é, portanto, o resultado de um processo de identificação com os pais, um modo de preservar o amor e o reconhecimento do Outro, mesmo na ausência dele.

p.65[...] Freud estabelece a articulação entre o complexo de Édipo e o complexo de castração. É a partir da castração que o complexo de Édipo se reordena - em torno da ameaça de castração para o homem e da inveja do pênis para a articulando a falta com o complexo de Édipo. Para o menino, trata-se da ameaça de castração pelo pai que viria a castrar o filho por desejar ficar com a mãe; e para a menina, a inveja do pênis que supõe que iria satisfazer a mãe. Freud retoma, portanto, o complexo de Édipo em torno de algo que marca toda a psicanálise: a falta. Trata-se de uma falta que dá o selo à sexualidade e que adquire no falo seu significante primordial, ou seja, a sua significação de castração. Há duas vertentes da falta. Por um lado, a falta causa desejo, por outro, cria a angústia de castração, mostrando aí o mal-estar do sujeito. A angústia se manifesta quando o sujeito não consegue cumprir os ordens do supereu, sendo que, na verdade, ele nunca consegue, porque o supereu está sempre comparando o sujeito com aquilo que ele supõe que seria o ideal necessário (ideal do eu) para ser amado pelo Outro a fim restituir o narcisismo da infância em que ocupava a posição de “sua majestade, o bebê”. E o supereu está sempre aí, paradoxalmente exigindo e apontando essa impossibilidade (Quinet, 2003, p. 26).

p.65Inicialmente, a criança obedece por medo de perder o amor dos pais; mais tarde, essa autoridade se torna interna, o supereu passa a exercer vigilância e censura. Assim, o sujeito aceita o recalque para preservar o amor do Outro.

p.66À questão sobre a fonte da moral Freud trouxe essa inapreciável conotação que chamou de Mal-estar na civilização, em outros termos, esse desregramento por meio do qual uma certa função psíquica, o supereu, parece encontrar em si mesma seu próprio agravamento por uma espécie de ruptura de freios que asseguravam sua justa incidência. Resta saber como, no interior desse desregramento, no fundo da vida psíquica, as tendências podem encontrar sua justa sublimação (Lacan, 2008, p. 174).

p.66É nesse ponto que Freud e Lacan se encontram: o momento em que a moralização da criança coincide com sua entrada na linguagem. A constituição de um eu coerente e a internalização das normas morais pressupõem que a criança aceite expressar e organizar seu desejo por meio da linguagem. Submeter-se à autoridade da moral, que é também a base do recalque, significa assumir a estrutura simbólica. Para a criança, essa estrutura se apresenta sob a forma do Outro, ou seja, a instância da linguagem e da lei que orienta e limita seu desejo (Andrade Júnior, 2008).

p.66Para Lacan, o recalque corresponde à aceitação do Outro e da linguagem como instâncias moralizadoras e humanizadoras, responsáveis pela formação do sujeito e também pela emergência do sintoma. Nesse sentido, a ética da psicanálise propõe levar o sujeito, por meio da análise, a ir além da moral do Outro, ultrapassando o sintoma para alcançar o ponto em que o simbólico toca o real (Andrade Júnior, 2008).

p.66Como o sintoma é uma resposta ao desejo do Outro, o fim da análise coincide com a queda da demanda e com o reconhecimento da inconsistência do Outro, simbolizada por Lacan na barra que o atravessa (A), sinal de que o simbólico é marcado por uma falta estrutural, representada pelo objeto a. Assim, o Outro, antes visto como onipotente e portador de um saber absoluto, revela-se incompleto (Andrade Júnior, 2008).

p.66Ao final da análise, o analisante experimenta um luto semelhante ao do analista: a perda da crença em um Outro que garantiria o sentido ou responderia por seu desejo. Nesse ponto, ele pode reconhecer o analista, antes investido como figura de saber apenas como um resto, marca de uma travessia bem-sucedida (Andrade Júnior, 2008).

p.67Isso não significa que, ao final da análise, o sujeito encontre aquilo que falta ao Outro, o objeto a. Esse objeto não é algo que se possua ou descubra, mas algo que apenas se entrevê a partir da experiência da falta no Outro. O analisante percebe, então, que o Outro é incompleto, e que o objeto causa do desejo só pode ser intuído como ausência, como o negativo do simbólico (Andrade Júnior, 2008).

p.67Essa experiência só é possível porque o analista recusa ocupar o lugar do Outro, isto é, não se apresenta como aquele que detém o saber ou pode satisfazer a demanda do analisante. Ao sustentar o lugar de objeto a, o analista permite que o sujeito confronte sua própria falta (Andrade Júnior, 2008).

p.67Por isso, é fundamental que o analista o tenha mesmo atravessado sua análise pessoal, apenas assim pode sustentar essa posição ética. É nesse ponto que se cumpre o fim de uma análise orientada pelo desejo do analista: quando o sujeito reconhece a falta estrutural no Outro e se responsabiliza por seu próprio desejo (Andrade Júnior, 2008).

Saiba mais

p.67Para a psicanálise, especialmente na leitura que autores como Christian Dunker fazem, o esquecimento não é um defeito da memória, mas uma operação psíquica necessária para que o sujeito possa viver, simbolizar e desejar. Dar valor ao esquecimento tem a ver com a ética na psicanálise porque essa ética não exige que o sujeito lembre de tudo, nem que reconstrua uma verdade total sobre si, mas que possa fazer algo com o que retorna do inconsciente. Esquecer, aí, é também abrir espaço para o novo, desfazer identificações mortíferas, soltar o gozo que nos fixa ao passado. Em vez de um imperativo de lembrar sempre, a ética analítica aposta numa posição menos tirânica diante da própria história: não se trata de apagar o trauma, mas de não ficar inteiramente determinado por ele. Para saber mais, acesse:

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Figura da página 70

p.70Conclusão

p.70Nesta unidade vimos que a clínica psicanalítica, tal como pensada por Lacan a partir de Freud, só se sustenta quando o analista ocupa uma posição ética distinta da do Eu que aconselha ou educa. Partimos da demanda do sujeito, sempre atravessada por pedidos de amor, de reconhecimento e de sentido e mostramos que o trabalho do analista não é satisfazer essa demanda, mas escutá-la até que apareça o desejo que a sustenta. Assim, ética, técnica e teoria do sujeito ficaram amarradas em um mesmo ponto: o inconsciente só fala quando alguém o escuta sem querer completá-lo.

p.70Também estudamos o papel do sujeito suposto saber na transferência: o analisante fala porque supõe que o analista sabe algo sobre seu sofrimento. Porém, a ética exige que o analista não se apodere desse saber nem se coloque como modelo, mas que mantenha esse lugar “vazio”, deixando que o próprio sujeito produza seu saber sobre o desejo e o gozo. Foi isso que nos levou à ideia de que o analista ocupa um “lugar sem sujeito”: ele empresta sua presença ao lugar do Outro, mas não se confunde com ele, evitando o uso de poder e os impasses imaginários da relação dual.

p.70Concluímos, então, que a responsabilidade do analista é, sobretudo, com o desejo do sujeito e o seu próprio, na medida em que não deve ceder ao apelo de responder com saber ou com amor. Este é um ponto de chegada, mas também um convite. Para aprofundar, vale retomar o Seminário 11 e o Seminário 7 de Lacan, reler os textos técnicos de Freud sobre transferência e estudar autores que discutem o desejo do analista na clínica contemporânea. Quanto mais o estudante percorrer essas leituras, mais clara ficará a força de uma ética que faz do lugar do analista uma condição para que o sujeito responda por si.

p.71Referências Bibliográficas

p.71Livros

p.71FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933 [1932]). Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v.

p.71LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

p.71LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Antônio Quinet. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

p.71FREUD, Sigmund. A dissecação da personalidade psíquica (1933). In: FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933 [1932]). Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. — (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v.

p.71LACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 248-264.

Unidade IV

Dilemas éticos contemporâneos na clínica psicanalítica e em diferentes contextos de atuação

p.71Introdução

p.72Este capítulo discute a ética da psicanálise a partir de Freud, Lacan e autores contemporâneos, mostrando que o sintoma não é apenas um incômodo a ser eliminado, mas uma forma de retorno do desejo recalcado. Em vez de suprimir o sintoma de imediato, a psicanálise o toma como via de acesso ao inconsciente e, por isso, exige do analista uma posição de exterioridade em relação às queixas do paciente. A questão ética, aqui, é fazer o sintoma falar, e não silenciá-lo.

p.72A unidade também mostra que essa ética se mantém quando a psicanálise sai do consultório e entra em outros contextos, escola, empresa, hospital, onde o discurso técnico tende a apagar o sujeito. Nesses cenários, a função do psicanalista é recolocar o desejo, a falta e a singularidade na cena, desmontando ideais de controle total, de rendimento ou de padronização do sofrimento. Assim, a psicanálise se afirma como prática que inclui o que a moral e a gestão normalmente excluem.

p.72Por fim, o capítulo sublinha que essa posição ética não se sustenta sem formação contínua: análise pessoal, estudo teórico e supervisão são exigências estruturais do ofício. O analista precisa trabalhar o próprio inconsciente para não confundir seus impasses com os do paciente e para manter a escuta aberta ao sujeito. Trata-se, portanto, de uma ética do desejo que se traduz em responsabilidade clínica permanente.

p.72A ética da psicanálise

p.72A posição do psicanalista é de exterioridade com relação às queixas, ao mal-estar. Ele ocupa um lugar daquele que tem um saber sobre o que significam as queixas, os sintomas, as angústias, pois presume-se que adquiriu no decorrer de sua formação e atuação. Assim como ocupa um lugar de saber sobre o que fazer para eliminar essas fontes de sofrimento, ou seja, o analisando busca o psicanalista para ter respostas, dicas, sugestões de ações eficazes.

p.72Normalmente, o analisando quer resoluções para o seu mal-estar de forma rápida e sem muito esforço. Entretanto, o mal-estar é o sintoma que revela o desejo inconsciente recalcado. Deste modo, o sintoma, o sofrimento ocupam o lugar de um objeto de estudo e de trabalho, que o analisando almeja extingui-lo e/ou atenuá-lo.

p.72Freud na conferência XVI, “Os caminhos da formação dos sintomas”, trabalhou para responder o seguinte questionamento: “por que o sintoma aparece desse jeito e não de outro? Freud demonstrou neste trabalho por qual via o desejo recalcado consegue voltar e se expressar como sintoma (Freud,1916-1917/2014).

p.73Para Freud (1916-1917/2014), o sintoma neurótico não é apenas um fenômeno de sofrimento, mas sobretudo uma formação de compromisso que resulta de um conflito entre uma exigência pulsional e as instâncias defensivas do eu. Quando a via direta de satisfação é recalcada, a libido procura um “novo método de satisfação”, isto é, uma forma substitutiva e disfarçada de realização do desejo, que se apresenta clinicamente como sintoma (Freud, 1916-1917/2014).

p.73Neste contexto, todo sintoma supõe conflito e recalcamento, parte da moção pulsional (frequentemente de caráter sexual-amoroso no sentido amplo que ele dá à sexualidade) que esbarra numa força contrária (exigências do eu, moral, realidade). Para que o eu não entre em choque direto com essa moção, ele a recalca. Este recalcamento não destrói o impulso, mas obriga o impulso a procurar um outro caminho.

p.73Este caminho manifesta-se nos sintomas, que é o “outro caminho” da pulsão. Como a via direta está fechada, a libido faz um desvio e encontra uma forma substitutiva de satisfação. Por isso Freud (1916-1917/2014), diz que o sintoma é ao mesmo tempo uma satisfação de desejo, pois tem sempre um pedaço de realização pulsional ali. É uma concessão à defesa, porque aparece de forma deformada, aceitável, deslocada). Freud (1916-1917/2014) denomina este mecanismo como a formação de compromisso.

p.73Há vários “caminhos” possíveis para esse retorno, Freud (1916-1917/2014) mostra que o desejo recalcado não volta sempre pela mesma porta; ele pode voltar pela via somática/conversiva. Como na histeria, quando uma representação recalcada se liga a uma parte do corpo “disponível”, a tal “complacência somática”.

p.73Pela via obsessiva (o recalcado retorna como pensamento intrusivo, dúvida, rito); Pela via fóbica (o conflito é deslocado para um objeto ou situação externa); Pela via simbólica (o sintoma como espécie de enigma que representa o desejo).

p.73É importante compreender que o sintoma não é arbitrário. Ele segue as leis do inconsciente (condensação, deslocamento, simbolização) e usa o material psíquico que está à mão (lembranças infantis, experiências corporais, afetos disponíveis).

p.74Para Freud (1916-1917/2014) a sexualidade infantil é o material de base. Freud insiste que esses caminhos só são possíveis porque o sujeito, na infância, acumulou traços de experiências sexuais parciais (no sentido freudiano: zonas erógenas, investimentos afetivos, fantasias) que ficam como um “estoque”. Quando, mais tarde, há recalcamento, o recalcado se encaixa nesse material infantil pré-existente e dali sai o sintoma.

p.74O sintoma faz sofrer porque ele é um jeito ruim de resolver o conflito. É indireto, costuma ser exagerado, repetitivo e, sobretudo, desconhecido pelo eu. O sujeito não reconhece nele a satisfação pulsional que está acontecendo ali, só sente o custo.

p.74O sintoma é o retorno deformado de uma satisfação pulsional recalcada, que encontra certos caminhos (corpo, ideias, fobias, atos) para se realizar parcialmente, constituindo uma formação de compromisso entre o desejo e a defesa. Nesse sentido, o tratamento psicanalítico descrito em “Recordar, repetir e elaborar” mostra que, na impossibilidade de recordar o conflito, o paciente o repete na transferência, cabendo ao analista promover o trabalho de elaboração para que essa solução sintomática deixe de ser necessária (Freud, 1914/2010).

p.74Para o psicanalista o sintoma não representa um mal-estar, representa uma solução espontânea de um conflito psíquico inconsciente. O sujeito encontra esta resolução para satisfazer a libido (pulsão) que está nas representações inconscientes (recalcadas), as quais são incompatíveis com o resto do Eu, já que são desprezadas, entretanto, aparecem nos sintomas e pulsam para adentrar a consciência.

p.74sintoma é uma maneira de expressão do inconsciente, da subjetividade, que aparece na consciência como uma mensagem enigmática, porém, possível de ser reelaborada e interpretada no dispositivo analítico, com a transferência e com a associação-livre.

p.75A direção da ação do praticante não é a eliminação do sintoma, visto que eliminálo é calar o sujeito do inconsciente, assim a ética na psicanálise não é inviabilizar a maneira de expressão do conflito psíquico, mas consiste em fazer do analista, sua ação, fazer o sintoma falar. Ao desdobrar o sintoma em palavras, o recalcado acessa à consciência e, através dessa via, propicia outras vias de derivação da satisfação pulsional.

p.75A ética do analista está em respeitar o significado de cada sujeito, pois é peculiar, particular a cada um. Por isso, não cabe ao psicanalista interpretar os sintomas, a ele cabe uma posição de ignorância com relação ao significado do sintoma.

p.75O psicanalista tem um desejo de saber sobre os sintomas do analisando, que auxilia o analisando na investigação e na interpretação dos seus sintomas. Este desejo de saber deve ser utilizado para desenvolver no paciente um desejo de saber sobre o que quer dizer seu sintoma. A ética está em despertar no paciente o desejo de transformar o sintoma em um conteúdo que precisa de interpretação.

p.75Onde há um sintoma existe um sujeito do inconsciente que quer transmitir uma mensagem. A ética da psicanálise está na prática de respeitar e compreender que a extração de saber acontece pelo trabalho analítico com os desdobramentos simbólicos resultantes da decifração dos sintomas.

p.75Segundo Lacan (2008) a tomada do real pelo simbólico pode proporcionar ao sujeito um resgate de um pedaço da história da estruturação psíquica, ou seja, um conteúdo, uma vivência recalcada. São os impasses dessa estruturação que formam e mantêm o sintoma.

p.75Para Lacan (2008), quando o sujeito distingue o que é da ordem do real e o que é da ordem do simbólico verifica-se que o prazer humano não se liga diretamente ao real, mas ao simbólico. “Fictício”. Isso não significa algo enganador, mas aquilo que é tecido pela linguagem. Lacan resgata Freud que diz que a característica do prazer, como dimensão do que encadeia o homem, encontra-se totalmente no lado do fictício.

p.75Assim, O inconsciente é estruturado segundo o simbólico e, por isso, o princípio do prazer leva o sujeito não tanto a buscar a coisa em si, mas a reencontrar um signo, uma combinação significante que já lhe deu satisfação. Muitas das condutas humanas são assim orientadas por essa “boa sonoridade” simbólica, mais do que por uma referência direta ao real: o sujeito persegue o rastro simbólico e não a coisa mesma. Reconhecer esse primado do simbólico no prazer é o que permite, então, recolocar a pergunta sobre qual é, de fato, a função da realidade.

p.76Uma vez operada a separação do fictício e do real, as coisas não se situam absolutamente lá onde poderíamos esperá-las. Em Freud a característica do prazer, como dimensão do que encadeia o homem, encontra-se totalmente no lado do fictício. O fictício, efetivamente, não é, por essência, o que é enganador, mas, propriamente falando, o que chamamos de simbólico. Que o inconsciente seja estruturado em função do simbólico, que aquilo que o princípio do prazer faz o homem buscar seja o retorno de um signo, que o que há de distração naquilo que conduz o homem, sem que ele saiba, em seu comportamento seja aquilo que lhe dá prazer por ser de alguma forma uma eufonia, que aquilo que o homem busca e reencontra seja seu rastro em detrimento da pista-é a importância disso que é preciso medir no pensamento freudiano, para também poder conceber qual é, então, a função da realidade (Lacan, 2008, p.

p.76Deste modo, a Psicanálise tem como ética proporcionar ao analisando a descoberta do seu inconsciente, isto inclui o bem dizer; a busca de um saber, um saber dizer a satisfação pulsional fixada. A ética consiste em o psicanalista promover um reencontro do analisando com o desejo que o habita.

p.76É justamente este reencontro que ocorre no processo de decifração do sintoma, que o sujeito pode vivenciar a perda da eficácia do sintoma e o seu descarte.

p.76Segundo Freud (1914/2010), o processo analítico permite que o analisando percorra um caminho para a reconciliação com o conteúdo recalcado que se está expressando em seus sintomas. Na psicanálise, a ética consiste em tomar o sintoma com a devida seriedade, porque ele é a forma pela qual o inconsciente recalcado consegue aparecer na consciência. Fazer o sintoma falar significa criar condições para que o sujeito do inconsciente se exprima e, assim, possibilitar que a pessoa se reaproxime do próprio desejo, que é, no fundo, o que ela tem de mais valioso.

p.77O desejo em questão

Figura da página 78

FIGURA 1 - Qual é o meu desejo?

Fonte: Freepik.

p.78A psicanálise propõe uma ética que recoloca em cena aquilo que a moral costuma varrer para debaixo do tapete: a falta, o desejo e o que o inconsciente traz de estranho ao ideal de “boa conduta”. Em muitas tradições éticas, aquilo que não cabe no modelo humanista de sujeito, sobretudo o sexual e o pulsional, é tratado como algo a ser corrigido, domado ou elevado por algum ideal, religioso ou não. Quase sempre, nessas éticas, o desejo não é reconhecido como via legítima de realização (Júnior, 2008).

p.79[...] Nossas premissas são, neste sentido, mais modestas: a ética da psicanálise busca inserir a falta, dimensão do inconsciente, no campo da ética. Ora, todos estes elementos estranhos à moral, quando não são negados por alguma doutrina humanista, são relegados ao plano das bestialidades, do que deve ser ultrapassado, substituído, controlado por algum ideal ético, religioso ou não. Há uma constante entre as éticas tradicionais: o desejo não está nas ordens, nas vias da felicidade para o sujeito (Júnior, 2008, p. 139).

p.79Lacan (2008) quer incluir o real, esse ponto duro do inconsciente, dentro da reflexão ética, e não expulsá-lo. A ética do desejo não é uma ética que se justifica apagando o real, mas justamente tomando-o como ponto de partida. Na clínica, isso significa que o analista não trabalha com o que o sujeito já sabe e consegue explicar, mas com aquilo que ele não sabe sobre si e até se esforça para não saber. O endereço da interpretação não é o “eu” que organiza e racionaliza, mas aquilo que fala para além das boas intenções do eu (Júnior, 2008).

p.79É nesse mesmo lugar que se formam, e de uma maneira inconsciente, os processos orientados e dominados pela realidade, uma vez que se trata de o sujeito reencontrar o cominho da satisfação. Nessa ocasião a satisfação não poderá ser confundida com o princípio do prazer (Lacan, 2008, p. 55).

p.80Fazer análise, então, é pôr em palavras um saber que já estava no sujeito, mas estava recalcado. A ética da psicanálise aponta para que o sujeito assuma o próprio desejo, não se trata de inventar um saber novo, e sim de fazer vir à tona o que foi encoberto pelo recalque e pelos ideais. Quando isso acontece, o sujeito pode deslocar o eu do centro sem desmoronar, pode agir de outro modo sem perder sua capacidade de ação (Júnior, 2008).

p.80Fazer as coisas em nome do bem, e mais ainda em nome do bem do outro, eis o que está bem longe de nos abrigar não apenas da culpa, mas de todo tipo de catástrofes interiores. Em particular, isso não nos abriga certamente da neurose e de suas conseguências. Se a análise tem um sentido, o desejo nada mais é do que aquilo que suporta o tema inconsciente, a articulação própria do que faz com que nos enraizemos num destino particular, o qual exige com insistência que a dívida seja paga, e ele torna a voltar, retorna e nos traz sempre de volta para uma certa trilho, para a trilha do que é propriamente nosso afazer (Lacan, 2008, p. 373-374).

p.80O fim desse processo é o sujeito poder ser diferente do que vinha sendo. O trabalho do analista é justamente tornar visível a divisão do sujeito e dar lugar ao conflito que antes era negado. Para isso, a análise passa por desmontagens, contradições e pequenas desestabilizações que quebram as defesas e permitem que o sujeito se reposicione diante do desejo do Outro, agora de forma mais própria e menos comandada pelos ideais. Portanto, resgatamos o que Lacan fala sobre sua ética, “proponho que a única coisa da qual se possa ser culpado, pelo menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo.” (Lacan,2008, p.373).

p.81Segundo Júnior (2008, p. 140) “ceder ao desejo, neste caso, é considerá-lo intercambiável, reduzível aos objetos de consumo, passível de ser suprido por qualquer objeto que não seu objeto causa, o objeto a”. Neste contexto, o sujeito se torna responsável quando abandona seu próprio desejo para se deixar guiar apenas pela lógica dos bens e do consumo, entrando numa procura sem fim por um gozo imaginário que taparia a falta, algo que, de fato, só se encerraria com a morte.

p.81Lacan recorre a Antígona para mostrar o contrário disso, ela renuncia a tudo o que a cidade oferece como promessa de felicidade, laços familiares, segurança, prosperidade, para seguir o que reconhece como seu Bem, isto é, um desejo que ela não negocia. Lacan (2008) trouxe a história a Antígona como figura para mostrar o que é um desejo que não cede.

p.81Lacan (2008) retoma a tragédia de Sófocles, que narra a história da Antígona que desafia o decreto de Creonte, o qual proibiu enterrar o seu irmão Polinices, e decide cumprir o que reconhece como seu próprio bem. Ela sabe que vai morrer, mas mesmo assim mantém o ato. O ponto de Lacan não é fazer dela um modelo de “virtude”, mas mostrar que ali o desejo não é negociado com as promessas de felicidade da cidade, como casamento, filhos, status. Ela prefere sustentar o desejo a viver adaptada.

p.81Mesmo que esse caminho não seja possível ao sujeito comum, porque não existe um “desejo puro” para nós, Antígona funciona como direção: ela mostra o eixo em torno do qual o desejo se orienta quando não cede. E isso que Lacan quer mostrar com ela: não um modelo trágico a ser imitado, mas a figura de um desejo que não se deixa recobrir pelos ideais (Júnior, 2008).

p.81Assim a ética da psicanálise para Lacan (2008), não se orienta por uma busca de felicidade pronta nem pela simples satisfação das necessidades. Ela se coloca “do lado da vida” na medida em que aposta na criação a partir do desejo, criação que nasce justamente do vazio que habita os seres humanos.

p.82É aí que entra a sublimação que pode ser tema de análise, em vez de tentar tapar a falta com objetos de consumo, o sujeito pode criar um objeto, como uma obra, um fazer, uma forma que não elimina a falta, mas a representa. Quando Lacan (2008) diz que a sublimação “eleva o objeto à dignidade da Coisa”, ele quer dizer que o sujeito produz algo que faz borda em torno do que jamais será totalmente satisfeito. Assim, a ética da psicanálise não se guia pela promessa de bem-estar, mas pela possibilidade de o sujeito fazer algo com sua falta, criar, em vez de tentar esgotá-la.

p.82Assim, o analista não desempenha o papel de dizer quais virtudes o paciente deve seguir nem para prometer uma felicidade “correta”. Isso não quer dizer que seu trabalho seja negar toda forma de valor ou tornar-se indiferente ao sofrimento do outro, isso seria uma posição perversa. Do mesmo modo, um discurso totalmente antimoralista ou libertino acaba caindo em outro tipo de moral rígida, que também sufoca o desejo. O que se espera do sujeito, ao fim, é que ele reconheça o próprio desejo e assuma responsabilidade por ele (Júnior, 2008). É nessa direção que Freud coloca a psicanálise dentro do campo da moral.

p.82A partir de Freud, Lacan vai dizer que a psicanálise precisa de uma ética própria e que ela depende da posição que o analista ocupa na transferência. Essa posição não é a de um mestre que ensina como viver, mas a de alguém que se deixa ocupar, provisoriamente, como objeto de desejo do analisante. É justamente desse lugar, o do semblante de objeto a, que o analista pode manter seu compromisso ético com o desejo do outro e deixar que, onde o desejo aparece, algo como uma virtude singular possa surgir.

p.82(Clique no + ao lado esquerdo para visualizar todo o conteúdo)

Sintoma:

o sintoma é o retorno deformado de uma satisfação pulsional recalcada, que encontra certos caminhos (corpo, ideias, fobias, atos) para se realizar parcialmente, constituindo uma formação de compromisso entre o desejo e a defesa.

Caminho:

o processo analítico permite que o analisando percorra um caminho para a

reconciliação com o conteúdo recalcado que se está expressando em seus sintomas.

Ato educativo:

Toda educação é atravessada pelo inconsciente do adulto e pelo desejo da criança, o que torna inevitável uma “precariedade do ato educativo”. Educar é tentar convencer o Outro a satisfazer o desejo do adulto, da sociedade, dos governos etc.

Mal-estar:

o analisando quer resoluções para o seu mal-estar de forma rápida e sem muito esforço. Entretanto, o mal-estar é o sintoma que revela o desejo inconsciente recalcado. Deste modo, o sintoma, o sofrimento ocupam o lugar de um objeto de estudo e de trabalho, que o analisando almeja extingui-lo e/ou atenuá-lo.

p.83Por isso Lacan fala em uma ética do desejo, que só existe porque o analista aceita sustentar um lugar de vazio, sem preencher a demanda de felicidade do paciente. Sem essa escuta e sem esse lugar não há como levar adiante a proposta lacaniana de que “realizar o desejo” é sempre uma exigência radical.

p.83Dessa forma, a clínica analítica não vira uma pedagogia moral nem um treino de bons costumes. Lacan mostra que o ponto ético da psicanálise está onde o sujeito “falta”, no desejo, que não se deixa organizar totalmente pelo eu. É aí que ele situa a “política do falta-a-ser”, orientar-se pela alteridade do inconsciente e pela falta constitutiva do sujeito. No fim, o que a análise devolve ao analisante é a pergunta decisiva: você agiu de acordo com o desejo que o habita? Esse é o núcleo ético que Lacan quer preservar (Júnior, 2008).

p.83Contribuição da Psicanálise no contexto educacional

Figura da página 84

FIGURA 1 - Psicanálise e educação

Fonte: Freepik.

p.84No livro Educação e Psicanálise do autor Rinaldo Voltolini (2011) discute-se a contribuição da psicanálise para a educação. No início dos escritos ele demonstra que a psicanálise na educação proporciona uma nova visão aos educadores e todos os pares envolvidos na escola. Voltolini (2011) afirma que este deslocamento ocorre quando desloca-se do ponto focal a pergunta pedagógica do “qual é o melhor método?” para “o que torna a educação possível mesmo sendo estruturalmente impossível”.

p.84Voltolini (2011) lembra que Freud colocou o educar ao lado de curar e governar como “ofícios impossíveis”, mostrando que há um limite lógico, não técnico, para qualquer pretensão de controlar completamente os efeitos da educação. O autor retoma a célebre afirmação de Freud sobre os ofícios impossíveis, entre os quais incluiu o curar, ao lado do educar e do governar.

p.85A célebre afirmação de Freud sobre os ofícios impossíveis, entre os quais incluiu o curar, ao lado do educar e do governar, foi pronunciada, como já dito, sob a forma de aforismo: "Há muito adotei o dito espirituoso dos três ofícios impossíveis, isto é, educar, curar e governar.” Como tal, representa o ponto culminante, expresso de modo condensado e enigmático, de um longo percurso de discussão composto de vários fios provindos de múltiplos direções de investigação teórica que, num dado momento, exigiram uma formulação econômica para que fossem articulados. Por conta dessa característica, esse aforismo se presta facilmente a confusões e projeções de toda ordem que acabam por lhe atribuir sentidos que não comporta (Voltolini, 2011, p. 24).

p.85O autor deixa claro que a sociedade como um todo projetam na escola sentidos que não comporta. Assim, a psicanálise contribui primeiro desmontando o ideal pedagógico de mestria, isto é, a fantasia de que basta conhecer a criança para educá-la bem. Ainda no sentido de desconstruir esta fantasia, a psicanálise auxilia na ressignificação do sentido da educação, pois os pais, os governadores, presidentes, comunidade, sociedade, etc, esperam que a escola possa maximizar o efeito de sua influência sobre a criança na direção desejada.

p.85Esta direção é o desejo de que a criança seja disciplinada, dócil, obedeça as ordens sociais, sejam futuros operários submissos, que garanta que a criança não usará drogas etc. Para Voltolini (2011, p.10) "[...] a posição da psicanálise no campo educativo é a de desmontar a pedagogia enquanto discurso mestre e exclusivo sobre a educação”.

p.85Também mostra que toda educação é atravessada pelo inconsciente do adulto e pelo desejo da criança, o que torna inevitável uma “precariedade do ato educativo”. A segunda contribuição é recolocar o inconsciente na cena educativa, é fazer o adulto compreender que o fato de ignorar a criança não é por falta de teoria, mas porque ele não compreendeu a sua própria infância. É levar o adulto que está na sala de aula, na coordenação, na direção, como pedagogo, e todos os outros sujeitos ligados a escola, compreenderem que precisam cuidar e compreender a sua própria infância, para depois compreender a infância das crianças

p.86Sobre esse ponto a psicanálise fará uma advertência importante. Em “O interesse científico da psicanálise”, Freud dirá: “Não se pode ser educador se não se é capaz de participar da vida psíquica da criança, e se não as compreendemos, nós, os adultos, é porque não compreendemos mais nossa própria infância.” Com essa observação ele busca evidenciar que a ignorância do adulto sobre a criança é essencialmente da ordem do recalque que todo adulto realiza da própria infância. Não se trata, portanto, de uma falta de conhecimento, que seria contornada com uma melhor compreensão teórica sobre a criança, mas da instalação de um processo defensivo que implica um não saber ativo e que dificulta um estar com a criança (Voltolini, 2011, p. 42).

p.86Voltolini (2011) compreende que a ignorância do educador é um efeito de recalque, não de falta de informação, por isso, não basta recorrer à psicologia do desenvolvimento. Deve-se recorrer a psicanálise, visto que “[...] qualquer influência que alguém possa ter sobre outro depende de um campo que se estabelece entre ambos [...]" (Voltolini, 2011, p.34).

p.86A terceira contribuição é denunciar o mito da "boa medida” educativa. Voltolini (2011) recorre a Freud para demonstrar que educação liberal demais pende para a perversão e repressora demais pende para a neurose, e que essa busca de equilíbrio é uma tensão estrutural. “No fundo, qualquer finalidade estabelecida para a educação será problemática enquanto a educação carregar em si a marca de um dilema que não é outro senão aquele que existe entre o indivíduo e a civilização” (Voltolini, 2011, p. 39-40).

p.86A psicanálise não entrega o método certo, mas esclarece o dilema para que o educador decida de modo menos ingênuo as suas ações e que compreenda que toda decisão educativa exclui outra possibilidade. Por fim, a psicanálise contribui restituindo o lugar do sujeito da educação, pois a criança não é um “vazio a preencher”.

p.87A educação depende do outro sujeito querer aprender, querer conhecer, querer descobrir o mundo, querer viver em sociedade de forma harmônica, pois qualquer coisa que recebo do outro exige minha participação, meu consentimento, para que seja ativada em mim”. (Voltolini, 2011, p. 35). A psicanálise traz a compreensão de que a educação não é pura aplicação de técnicas, mas um encontro em que o adulto também se vê implicado. É isso que Voltolini (2011) chama de passar de “educação” para “educar” como posição discursiva.

p.87Contribuição da Psicanálise no contexto empresarial

p.87A psicanálise ajuda a enxergar aquilo que a gestão tradicional não vê, o inconsciente que circula nas relações de trabalho. Ela permite ligar sujeito e organização, mostrando que decisões, liderança, conflitos, engajamento e até adoecimento não são só “falta de treinamento” ou “erros de processo”, mas passam por desejos, fantasias, identificações e defesas que as pessoas mobilizam para poder trabalhar (Dejours, 2016).

p.87Dejours (2016) em sua obra “Psicodinâmica do Trabalho: casos clínicos” demonstra como a psicanálise entra na empresa através da psicodinâmica do trabalho, que é uma escuta psicanalítica aplicada ao trabalho que possibilita a compreensão das atitudes das pessoas, ou seja, o que as pessoas fazem para aguentar o trabalho. Para Dejours (2016) é na própria organização que a intervenção tem de abrir espaço de fala, elaboração e deliberação do sofrimento que a organização do trabalho provoca no sujeito, que é o adoecimento.

p.87No terreno das empresas, dos órgãos administrativos ou das instituições, com o objetivo de restaurar as condições de possibilidade de uma deliberação: deliberação coletiva orientada para a busca de uma ação racional capaz de transformar a organização do trabalho para restituir-lhe sua força de mediadora na realização pessoal (Dejours, 2016, p. 5).

p.88A psicanálise ajuda quando cria espaço para as pessoas falarem do trabalho real e, a partir disso, recolocar a organização em termos mais humanos. Dejours (2016, p.6) diz que “o instrumento essencial da prática é a escuta: escutar para tentar compreender [...]”, e que essa escuta precisa ser teórica.

p.88Assim, Dejours (2016, p. 6) afirma que a "[...] sensibilidade, portanto, não depende apenas de minha espontaneidade. A sensibilidade é conceitual, e quanto mais conhecimentos teóricos eu tiver, mais aumento minha sensibilidade à escuta”.

p.88A escuta precisa ser teórica, não só “sensível”. Na empresa, isso vira grupos de fala sobre o trabalho, análise de situações de assédio, de impasse, de medo, etc.. É importante compreender que sem escuta qualificada, o psicanalista organizacional não enxerga o sofrimento que vem da organização do trabalho e, portanto, não consegue intervir.

p.88De acordo com Dejours (2016), muitos comportamentos que são considerados pela empresa como “problema de pessoa” são, na verdade, “estratégias coletivas de defesa” construídas para suportar um trabalho que está difícil ou perigoso. Neste contexto, comportamentos como indisciplina, silêncio, cisão na equipe, gente que não fala do medo, etc. devem ser analisados e estudados pelo psicanalista, pois eles são sintomas.

p.88Esses comportamentos de bravata, indisciplina, provocação, insolência, risco, tabagismo ou alcoolismo deveriam poder ser reconhecidos sem serem logo considerados como sinais de inconsciência, de inconseguência, de imaturidade, de mentalidade arcaica, de personalidade psicopatológica ou de tendência delinquente (Dejours, 2016, p. 23).

p.88Quando a empresa tem acesso a essa leitura psicanalítica, ela pode adotar estratégias, normas, fazer intervenções, etc., para que deixe de patologizar o trabalhador e passa a olhar para a organização que está produzindo o sofrimento. Esse é um ganho direto para gestão de pessoas e de saúde ocupacional.

p.89Dejours (2016) mostra que o sofrimento no trabalho piora quando o sujeito fica isolado, quando a cooperação é quebrada e quando o medo vira ferramenta de gestão. A escuta de inspiração psicanalítica ajuda justamente a reconstituir o coletivo e a possibilidade de falar do trabalho.

p.89O medo de perder o emprego neutraliza a mobilização coletiva, gera o silêncio e o “cada um por si”, induz condutas de dominação/submissão. É necessário constatar que a manipulação da ameaça e da chantagem, bem como o assédio, é agora transformada em método de gerenciamento para levar go erro e permitir a demissão por justa causa ou para desestabilizar e levar ao pedido de demissão (Dejours, 2016, p.

p.89Dejour (2016) fundamenta a intervenção psicanalítica nas empresas nos conceitos e estudos científicos de Freud. Dejours (2016) demonstra o princípio freudiano de elaboração aplicado ao trabalho. Para o autor, quando o terapeuta ajuda o trabalhador a pôr em palavras o que vivia só como experiência, isso vira saber útil para inventar “novos caminhos”.

p.89A psicanálise, quando ingressa na empresa pela via da psicodinâmica do trabalho, permite restaurar a deliberação coletiva e intervir na própria organização do trabalho, deslocando o foco do “problema individual” para as determinações organizacionais que produzem sofrimento. Com o aporte da metapsicologia freudiana, ela oferece uma escuta qualificada capaz de transformar a experiência dolorosa e, muitas vezes, muda do trabalhador em saber sobre o trabalho.

p.90Ao fazê-lo, evidencia que muitos comportamentos tomados como falhas pessoais são, na verdade, estratégias defensivas construídas para suportar um trabalho adoecedor, indicando que a intervenção deve recair sobre a forma de organizar, gerir e avaliar o trabalho. Desse modo, a psicanálise contribui para recompor o coletivo, romper o silêncio imposto pelo medo e pelo assédio e reabrir o espaço de palavra como condição para a transformação organizacional.

p.90Contribuição da Psicanálise no contexto hospitalar

p.90No contexto hospitalar a psicanálise é utilizada para recolocar o sujeito onde o discurso médico o excluiu. Segundo Simonetti (2015) quando o psicanalista chega ao hospital, ele “vem a serviço da subjetividade, da singularidade, do desejo do sujeito” e a pergunta diária que o move é: “como introduzir, sustentar e operacionalizar a subjetividade em um cenário que a tem excluído sistematicamente?” (Simonet, 2015, p.14)

p.90Assim, a psicanálise no contexto hospitalar tem como intuito “[...] ajudar a pessoa a fazer a travessia do adoecimento [...]” (Simonetti,2015, p.14). De acordo com Simonetti “essa travessia pode ser feita de diferentes maneiras, almejando objetivos distintos, focalizando aspectos diversos e valendo-se de variados recursos teóricos e técnicos” (Simonetti,2015, p.14).

p.90A primeira contribuição é a de fazer aparecer o sujeito no meio de protocolos, rotinas e padronizações que tendem a apagar tudo o que é singular. O autor mostra que o hospital vive uma “maníaca necessidade de previsão, controle e padronização” e que o psicanalista não pode deixar se engolir por isso. O psicanalista não pode perder sua especificidade que é cuidar justamente do que é singular, particular, diferente, ou seja, do sujeito.

p.90Para o autor existe uma “radical diferença” entre psicologia hospitalar protocolizada e psicanálise, que resiste a isso:

p.91A psicologia costuma entrar sem muitas críticas nesse movimento de protocolos, enquanto os psicanalistas adotam uma postura mais crítica e resistem a isso — até porque no instante em que não resistem deixam a psicanálise de lado, pois, como definimos anteriormente, a psicanálise é uma clínica em pé, entre muitos, pela palavra e direcionada para o sujeito, e o sujeito some diante de qualquer padronização (Simonetti,

p.91A segunda contribuição é dar lugar àquilo que o discurso médico não sabe o que fazer, como a angústia, o medo, o modo próprio de cada um adoecer. Simonetti (2015) diz que a medicina exclui uma vertente do sofrimento, isto é, a angústia, e que, quando o médico quer cuidar disso, “passá-la diretamente ao psicanalista tem sido a opção mais frequente, afinal, este é o especialista em subjetividade” (Simonetti, 2015, p. 34).

p.91O autor também afirma que a psicanálise cuida da dimensão subjetiva de toda e qualquer doença, não só das psicossomáticas, porque “o sujeito não causa a doença, mas é ele quem a vive.

p.92O sujeito não causa a doença, mas é ele quem a vive, e em alguns casos até a morte. É preciso dizer essa frase com toda clareza possível para desfazer, de saída, um equívoco muito frequente nos meios médicos e psicológicos, segundo o qual a psicanálise ou qualquer abordagem psíquica do adoecimento cuida das doenças de causas psíquicas, as chamadas doenças psicossomáticas. A psicanálise não é uma psicossomática. Ela cuida da dimensão subjetiva de toda e qualquer doença. Não é preciso que haja uma doença supostamente causada pelo psiquismo do paciente para que a psicanálise entre em campo (Simonetti, 2015, p. 14-15).

p.92Assim, a psicanálise ajuda o hospital justamente onde o hospital costuma silenciar o paciente. A terceira contribuição é a ética da psicanálise, que é incluir a subjetividade na cena hospitalar. Isso quer dizer que o psicanalista não vai ao hospital para reforçar o poder médico, mas para abrir uma “outra cena” paralela ao modelo médico-científico quando for preciso, de modo que o doente possa falar e não apenas ser tratado como corpo.

p.92Na cena do adoecimento a psicanálise escolhe sustentar a presença do sujeito, tal escolha influência os objetivos, as estratégias e a técnica. O objetivo é a tarefa de ajudar o sujeito a fazer a travessia do adoecimento”. A estratégia, que é como fazer isso, não é clara, pois existem diferentes possibilidades.

p.92A entrada da psicanálise no hospital exigiu uma adaptação importante do modo de trabalhar, pois a análise como ocorre no consultório não é possível de ser igualmente aplicada no hospital. Por isso, a técnica da psicanálise no contexto hospitalar sofre adaptações, entretanto a essência psicanalítica permanece.

p.92O que mais se distancia da prática clássica é a técnica; os demais elementos, como a ética, a direção do tratamento e os objetivos de sustentar o sujeito e sua palavra, permanecem. A técnica sofre alterações porque o ambiente hospitalar impõe limites, já que o leito não cumpre a mesma função que o divã, a privacidade é rara, o tempo é curto e determinado por rotinas médicas.

p.93Mesmo assim, algo essencial se conserva, a escuta e a aposta na associação livre. É isso que permite afirmar que ainda se trata de psicanálise, embora não se trate de análise no formato tradicional de sessões semanais de cinquenta minutos. Por isso, no hospital, a técnica psicanalítica se organiza mais sob a forma de atendimentos do que de sessões propriamente ditas.

p.93Trata-se de uma clínica que se faz no meio da equipe, em movimento, sustentada pela palavra.

p.93Atendimento curto ou longo, único ou vários - não é isso o que decide se uma clínica é psicanalítica, e sim a posição do clínico e q sua técnica, e podemos notar que estas são no hospital as mesmas do consultório, isso não muda. A associação livre e a escuta a partir da posição do analista, mesmo que seja por cinco minutos, faz desse encontro uma clínica psicanalítica. Então, respondendo à pergunta que fizemos anteriormente, sim, é possível falar em psicanálise em atendi mentos únicos e curtos, este é o desafio dos psicanalistas que trabalham na cena hospitalar: desenvolver uma técnica que seja clinicamente eficaz nos limites de um único encontro (Simonetti, 2015, p. 202).

p.93Por fim, Simonetti (2015) mostra o efeito institucional da presença do psicanalista no hospital, pois a medicina demonstra pouco interesse no discurso psicanalítico e o engole. Entretanto, não a impede de conviver no mesmo espaço e prestar atendimento ao paciente, exercer outros discursos e sustentar o lugar da palavra do paciente.

p.94O fato de a medicina estar pouco interessada no discurso psicanalítico não a impede de usar a psicanálise como depositária daquilo que lhe escapa: o sujeito. Do mesmo modo que existem hospitais de retaguarda para os pacientes fora das possibilidades de cura, existem os “profissionais psi” para os aspectos subjetivos do paciente. O que se espera do psicanalista é que ele acomode a pessoa em seu papel de paciente para que a medicina possa realizar seu trabalho, que ele seja capaz de colocar um pouco de ordem nos famosos fatores psíquicos que tanto desarrumam a ordem médica (Simonetti, 2015, p. 222-223).

p.94Segundo Simonetti (2015), a atividade psicanalítica no hospital é como uma clínica pela palavra, em pé, e entre vários. Ao adentrar o hospital, o psicanalista deixou para trás a sua poltrona, o divã, a privacidade e o silêncio da sua clínica, para vivenciar um novo setting de atendimento.

Saiba mais

p.94O desejo é mais complexo e inconsciente do que a mera vontade. Todo sujeito é sujeito porque é desejante, o desejo é uma força motriz inconsciente buscando incessantemente algo que falta, o que jamais poderá ser completamente alcançado. Para saber mais, acesse:

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p.95Análise pessoal

p.95O analista precisa se submeter a purificação, que ocorre ao acessar seu inconsciente através de sua própria análise pessoal. De acordo com Freud (1912/2020, p.99) “não basta ele ser uma pessoa razoavelmente normal; pode-se antes exigir que ele tenha se submetido a uma purificação psicanalítica” (Freud,, 1912-2020, p. 99).

p.95Segundo Freud (1912/2020), o psicanalista deve utilizar o próprio inconsciente como instrumento de trabalho na relação com o analisando. A psicanálise é uma experiência que se funda do inconsciente. Por esse motivo, torna-se indispensável que o futuro analista passe por sua própria análise, ou seja, que se submeta pessoalmente a essa experiência.

p.95Ainda conforme Freud (1912/2020), uma pessoa relativamente equilibrada, que pretenda atuar na psicanálise, pode tirar grande proveito desse processo, desenvolvendo maior autoconhecimento, mais domínio sobre si e uma capacidade mais refinada de se perceber e, até certo ponto, de se analisar.

p.95Mas aquele que, enquanto analista, tiver desprezado o cuidado da autoanálise não apenas será punido através da incapacidade de aprender em certa medida com seus pacientes, mas ele também correra o risco mais sério, que poderá se tornar um risco para os outros (Freud, 1912/1920, p. 101).

p.95Freud (1937/2020) no texto “Análise finita e análise infinita”, retoma a questão dos limites da experiência analítica e, a partir dela, reforça a necessidade da análise do próprio analista. O autor observa que, mesmo em análises bem conduzidas, permanecem formações resistentes do eu, do supereu e da sexualidade infantil que não se deixam totalmente elaborar, o que o leva a distinguir entre análises “termináveis” e “intermináveis”.

p.96As análises “finitas” (termináveis) são aquelas em que os sintomas principais foram trabalhados, as transferências essenciais foram analisadas e o sujeito ganhou mais liberdade psíquica. As análises “infinitas” (intermináveis) são aquelas em que algo resiste, em que certas formações do eu, do supereu ou certas posições libidinais não cedem totalmente, mesmo com uma boa técnica (1937/2020).

p.96Neste contexto, quando a análise encontra esse limite, é preciso que o analista perceba que existem coisas na estrutura psíquica que são muito difíceis de modificar apenas pela interpretação. E isso vale tanto para o analisando quanto para o analista.

p.96O analista não está imunizado pelas suas leituras nem pela sua profissão, visto que o fato de ele ser analista não o livra de ter resistências, pontos cegos, identificações rígidas com o supereu ou com ideais, e até traços de caráter que podem comprometer a análise dos outros (1937/2020).

p.96Freud (1937/2020) sinaliza que o inconsciente não se esgota, por isso, analista não pode considerar-se definitivamente “analisado”. A ética na psicanálise decorre de uma exigência de ordem técnica, e não moral, pois o analista deve submeter-se à própria análise. Para reduzir pontos cegos, flexibilizar identificações de caráter e impedir que suas próprias resistências interfiram na transferência e na interpretação.

p.96A análise do analista é condição de possibilidade da prática psicanalítica, pois somente um analista que se deixa analisar pode sustentar a posição requerida pela técnica freudiana. Assim, Freud (1937/2020) reafirma que a formação analítica não se esgota na aquisição de conhecimento teórico, mas implica uma experiência pessoal com o inconsciente, que precisa ser retomada sempre que os impasses clínicos indicarem o retorno de formações não analisadas.

p.97Lacan (1967/2003) estabelece críticas à visão de que a análise didática é apenas um “treinamento” para formar psicanalistas. Lacan (1967/2003) desloca o problema da formação do plano exclusivamente institucional para o plano da experiência subjetiva com o próprio inconsciente. Para Lacan (1967/2003) não basta cumprir etapas formais, como faculdade, cursos de formação do analista, etc., mas deve-se essencialmente passar por uma implicação real em sua análise pessoal, da qual espera-se de um analista. Nesse sentido, Lacan (1967/2003) coloca no centro da formação não o saber da instituição, mas o saber que advém do inconsciente do próprio sujeito e a ética que decorre dessa experiência.

p.97Por isso ele retoma o tema do fim de análise e propõe pensar não só a análise como requisito, mas o que ela produz: um sujeito que, ao atravessar sua própria análise e confrontar-se com o desejo e com o real do inconsciente, pode então passar da posição de analisando à de analista. No texto de proposta de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, Lacan afirma que o psicanalista só se autoriza de si mesmo, ou seja, a autorização do analista não é dada de fora, por um diploma, mas é de ordem ética, ligada à experiência do inconsciente e ao modo como o sujeito a sustentou em análise.

p.97O analista só se autoriza de si mesmo, isso é óbvio. Pouco lhe importa uma garantia que minha Escola lhe dê [...] Não é com isso que ele opera. O grupo italiano não está em condições de fornecer essa garantia. Aquilo de que ele tem de cuidar é que, a autorizar-se por si mesmo, haja apenas o analista Lacan (1967/2003, p. 311-312).

p.97Desse modo, Lacan (1967/2003) esclarece que para ser analista não basta formação, ou seja, fazer faculdade, ou passar por uma escola de formação, ter uma carteirinha que autoriza ou declara que a pessoa é analista. É preciso compreender que a análise pessoal é condição necessária, mas também não suficiente.

p.98O analista é, antes de tudo, aquele que passou pela experiência da própria análise. Mas, para Lacan, não basta ter feito a análise ou ter cumprido a formação institucional: só pode realmente “autorizar-se de si mesmo” quem alcançou a posição subjetiva de analista. Essa autorização não é um gesto narcisista nem um simples ato formal; ela é o efeito de uma análise que permitiu ao sujeito atravessar sua própria alienação e sustentar o desejo do analista. Em outros termos, trata-se de uma ética do inconsciente, vivida primeiro na análise pessoal, a partir da qual o futuro analista pode, então, formar-se e ocupar de fato essa posição (Lacan, 1967/2003).

p.98Supervisão contínua para a sustentação de uma postura ética

Figura da página 98

FIGURA 1 - Supervisão de casos.

Fonte: Pixabay/Maximilianovich.

p.98Freud (1912/2010), escreveu o ensaio “Recomendações ao médico que pratica a psicanálise”, neste trabalho Freud reúne orientações técnicas dirigidas ao analista, sobretudo quanto à atitude de escuta, manejo da transferência e postura do médico diante do inconsciente do paciente.

p.99Neste ensaio, Freud não apresenta ainda a supervisão como uma etapa formal da formação do psicanalista, tal como se consolidou mais tarde nas escolas de psicanálise. No entanto, ele estabelece as bases éticas e técnicas que tornam essa prática praticamente inevitável. O texto é dirigido ao analista, não ao paciente, e tem como objetivo orientar a posição daquele que escuta. Freud mostra que, para que a análise aconteça, não basta conhecer a teoria, é preciso ocupar uma certa posição subjetiva diante do inconsciente do analisando (Freud, 1912/ 2010).

Um dos pontos centrais do texto é a ideia de que o analista deve “se servir do próprio inconsciente como instrumento”. Isso quer dizer que ele não deve escutar o paciente apenas com a razão consciente, selecionando o que lhe parece mais importante, mas deve manter uma atenção parelha, sem privilegiar elementos conforme seus interesses pessoais.

Para que isso seja possível, o analista precisa ter algum trabalho prévio sobre o seu próprio inconsciente. Caso contrário, ele corre o risco de confundir o que vem do paciente com o que é dele mesmo, por isso a importância do analista fazer análise, como já ressaltamos no tópico anterior.

p.99Entretanto, é importante resgatá-lo na discussão da supervisão, pelo fato de que se o analista não se analisou suficientemente, ou não ainda não conseguiu em sua análise resolver alguns conteúdos, tende a deixar suas resistências interferirem no tratamento. De forma inconsciente pode impedir que o seu inconsciente acesse o inconsciente do analisando. Assim, justifica-se o fato da supervisão, para que alguém de fora do caso, possa analisá-lo e ajudar o analista a enxergar o que não consegue ver.

p.99Assim, o psicanalista utiliza à supervisão para auxiliá-lo a cumprir o que Freud (Freud,1912/2010) orientou, evitar introduzir seus preconceitos, suas teorias preferidas ou seus afetos pessoais na condução do caso, então ele precisa de um recurso que o ajude a ver justamente aquilo que ele não está vendo.

p.99A supervisão cumpre essa função, o analista mais experiente escuta o caso que o iniciante traz já filtrado e organizado, e, por estar menos implicado na transferência, consegue apontar os pontos cegos. Assim, mesmo sem nomear o dispositivo, Freud já aponta para a necessidade de o analista contar com outro analista. No texto “A questão da análise leiga” Freud (1926/2006) afirma que a psicanálise não é restrita somente aos médicos, ele relata o que é essencial na formação de qualquer analista.

p.100Freud (1926/2006) afirma que o que autoriza alguém a praticar psicanálise não é o diploma, mas ter passado por uma formação psicanalítica real. Para Freud (1926/2006) essa formação envolve três elementos, o primeiro é a própria análise do futuro analista, porque ele também possui inconsciente. O segundo é o estudo da teoria, para ter fundamentação teórica e o terceiro é o acompanhamento do seu trabalho clínico por um analista mais experiente. Esse terceiro ponto é o que, depois, passou a ser chamado de supervisão.

p.100Segundo Freud (1926/2006), quem está começando não percebe todas as armadilhas da transferência nem todos os pontos em que seus afetos pessoais entram no caso; por isso, precisa submeter seus atendimentos ao olhar de outro analista. Assim, o “controle” serve para garantir que a técnica freudiana seja mantida e que o analista não transforme a psicanálise em aconselhamento, pedagogia ou opinião própria. Ele chega, inclusive, a dizer que isso vale também para o chamado “analista leigo”, que pode não ser médico, mas tem de se submeter às mesmas exigências de formação, inclusive ao controle do trabalho clínico.

p.100Para Freud (1926/2006) a supervisão não é opcional, e sim como uma exigência lógica da própria psicanálise, visto que se o analista tem inconsciente, ele precisa de outro analista para ajudá-lo a ver o que ele não vê.

p.100Freud também se dedicou também ao problema da formação do psicanalista. Em um primeiro momento, ele chegou a indicar que o futuro analista poderia iniciar esse percurso pela análise de seus próprios sonhos (Freud, 1900/2010). Porém, mais adiante, reconheceu que isso não era suficiente, pois era necessário viver uma análise conduzida por outro analista, para que o vínculo transferencial fosse efetivamente experimentado, isto é, para que a análise fosse feita “na própria carne” (Freud, 1912/ 2010).

p.100Lacan (1988) diz que a supervisão dá ao caso uma “segunda visão”: não mais a do analista que está atendendo, mas a de alguém que olha de fora. E, muitas vezes, essa segunda visão é até mais esclarecedora do que para quem trouxe o caso. Isso acontece porque, ao narrar o atendimento, o analista em formação já faz um recorte, organiza o que o paciente disse e tira os excessos técnicos. Ou seja, ele filtra.

p.100Desse modo, o supervisor recebe um caso mais claro e consegue enxergar com facilidade as diferentes camadas do discurso: o que é imaginário, o que é simbólico, o que toca o real. Fica tudo mais visível.

p.101Lacan (1988) acrescenta um ponto importante, o fato de que a supervisão funciona melhor quando o supervisor não ocupa o lugar de fiscal, de quem “controla” o outro, e sim quando ajuda o supervisionando a entrar nessa mesma posição, a posição de segunda escuta. Assim, a supervisão não vira julgamento, e sim formação, o analista em formação aprende a se descolar um pouco do caso e a escutar como o supervisor escuta.

p.101Contudo, os jovens analistas que se deixarem levar pelo que esse recurso implica de dons impenetráveis não encontrarão nada melhor para retroceder do que referir-se ao sucesso das próprias supervisões [contrôles] a que se submetem. Do ponto de vista do contato com o real, a possibilidade mesma dessas supervisões se tornaria um problema. Muito pelo contrário, o supervisor manifesta nelas uma segunda visão, conviria dizer, que, para ele, torna a experiência ao menos tão instrutiva quanto para o supervisionando. E isso, quase que sobretudo por este último exibir menos esses dons, que alguns os tomam por ainda mais incomunicáveis, fazendo de seus segredos técnicos um embaraço maior. A razão desse enigma é que o supervisionando desempenha ali o papel de filtro, ou então de refratar do discurso do sujeito, e assim, apresenta-se inteiramente pronta ao supervisor uma estereografia que já destaca os três ou quatro registros em que ele pode ler a divisão constituída por esse discurso. Se o supervisionando pudesse ser posto pelo supervisor numa posição subjetivo diferente da implicada pelo sinistro termo contrôle (vantajosamente substituído, mas apenas na língua inglesa, por supervision), o melhor fruto que extrairia desse exercício seria aprender a se manter, ele mesmo, na posição de subjetividade secundária em que a situação coloca imediatamente o supervisor (Lacan, 1988, p. 253).

p.102Deste modo, tanto Freud (1919/2006) como Lacan (1988) deixam claro que a psicanálise não pode ser reduzida ao ensino acadêmico. Para eles, o estudo da teoria deve caminhar junto com a experiência clínica, o avanço teórico em psicanálise está ligado à análise pessoal, ao exercício da clínica e à supervisão.

p.102Destaca-se a importância de que analistas iniciantes mantenham, analistas que não conseguem avançar nos casos dos pacientes estabeleçam contato com analistas mais experientes. Este contato é a prática da supervisão, que, junto com a análise pessoal e o estudo teórico compõem o tripé clássico da formação do psicanalista.

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Figura da página 105

p.105Conclusão

p.105Nesta unidade vimos que o ponto de partida da ética psicanalítica é simples e exigente ao mesmo tempo: o sintoma não é um erro a ser eliminado, mas a forma pela qual o desejo recalcado conseguiu aparecer. Por isso, o analista não pode se apressar em “curar” calando o sintoma; sua tarefa ética é fazer o sintoma falar, isto é, criar as condições para que o sujeito reencontre, pela palavra, o caminho do que foi recalcado e retorna em forma de sofrimento.

p.105Vimos também que essa mesma lógica vale quando a psicanálise entra em outros campos - escola, empresa, hospital - onde o discurso técnico tende a apagar a singularidade. Em todos esses contextos, o que a psicanálise faz é recolocar o sujeito na cena, mostrando que o adoecimento no trabalho, as dificuldades educativas ou o sofrimento diante da doença não são apenas “falta de técnica”, mas têm relação com desejo, defesa, fantasia e laço social. Assim, a ética do desejo torna-se um critério de intervenção e não apenas uma ideia abstrata.

p.105Por fim, a unidade ressaltou que essa ética só se sustenta se o psicanalista estiver em formação contínua: análise pessoal, estudo e supervisão. Freud e Lacan insistem nisso porque o analista também tem inconsciente e pode deixar seus pontos cegos interferirem na clínica; a supervisão é justamente o lugar da “segunda escuta” que ajuda a manter a direção do tratamento.

p.105Como próximo passo, vale aprofundar os textos técnicos de Freud, o Seminário 7 de Lacan e as obras que tratam da psicanálise aplicada à educação, ao trabalho e ao hospital - quanto mais o estudante circular por essas fontes, mais conseguirá sustentar essa posição ética na prática.

p.106Referências Bibliográficas

p.106Livros

p.106DEJOURS, Christophe. Psicodinâmica do trabalho: casos clínicos. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2016.

p.106FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos [1900]. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas, v. 5).

p.106FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

p.106LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. (Campo Freudiano no Brasil).

p.106SIMONETTI, Alfredo. Psicologia hospitalar e psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2015.

p.106VOLTOLINI, Rinaldo. Educação e psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

p.106Artigos/Revistas

p.106CARRASCO, Hilda Victória; VIZEU, Fabio. Estudos organizacionais e psicanálise: considerações sobre essa trajetória de articulação. Revista Eletrônica de Ciência Administrativa, Curitiba, v. 23, n. 3, p. 334-368, set./dez. 2024. DOI:

p.10610.21529/RECADM.2024013. Disponível em: http://www.ibepes.org.br/. Acesso

p.106em: 11 nov. 2025.

p.106RIBEIRO, Márden de Pádua. Contribuição da psicanálise para a educação: a transferência na relação professor/aluno. Psicologia da Educação, São Paulo, n.

p.10639, p. 23-30, dez. 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script

p.106=sci arttext&pid=S1414-69752014000200003&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 5 nov.

p.1062025.

p.106Capítulos de livros

p.106FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga: conversas com uma pessoa imparcial [1926]. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

p.107FREUD, Sigmund. Análise finita e análise infinita (1937). In: FREUD, Sigmund. Fundamento da clínica psicanalítica. Tradução de Claudia Dornbusch. 2. ed., 3. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. (Obras incompletas de Sigmund Freud, 6).

p.107FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 147-158.

p.107FREUD, Sigmund. Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912). In: FREUD, Sigmund. Fundamento da clínica psicanalítica. Tradução de Claudia Dornbusch. 2. ed., 3. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. (Obras incompletas de Sigmund Freud, 6).

p.107FREUD, Sigmund. Recomendações ao médico que pratica a psicanálise [1912]. In: FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”: artigos sobre a técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

p.107FREUD, Sigmund. Sobre o ensino da psicanálise nas universidades [1919]. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 185-192.

p.107LACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro; versão final de Angelina Harari e Marcus André Vieira; preparação de texto de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 248-264. (Campo Freudiano no Brasil).