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Introdução à Teologia Bíblica do Novo Testamento
p.2Tiago Calazans Elias, especialista.
p.2Acredito que você já esteja pronto(a) e na expectativa de iniciarmos nosso estudo sobre a Teologia do Novo Testamento, mas para que isso aconteça, é preciso introduzir alguns fundamentos na abordagem da disciplina. Esta é uma disciplina de base teórica e nesta unidade introdutória, abordaremos o conceito de Teologia e como as metodologias do estudo teológico direciona para resultados diversos, além de um panorama do histórico do estudo bíblico e teológico do Novo Testamento. Caro(a) estudante, ao ler este ebook você vai: Aprender sobre a história da teologia bíblica do Novo Testamento. Refletir sobre a diferença de teologia bíblica, teologia exegética e teologia sistemática. Compreender sobre o tema teológico fundamental no Novo Testamento. Estudar as escolas de teologia do Novo Testamento.
p.2Olá, Caro estudante. Nesta unidade faremos uma apresentação da natureza dos estudos bíblicos e teológicos. Vamos situar e delimitar nosso objeto de estudo, frente às diversas possibilidades de abordagens, metodologias e perspectivas. Didaticamente, dividimos nosso roteiro de estudos para este capítulo em três momentos: no primeiro, faremos uma definição do conceito de teologia bíblica, sua diferenciação entre as demais abordagens metodológicas; no segundo momento, falaremos o panorama histórico da teologia bíblica, bem como a problematização do objeto de estudo; por fim, no terceiro momento, definiremos os pressupostos teóricos que utilizaremos para o estudo teológico em nosso livro.
p.3Indicamos, a leitura atenta deste capítulo, pois é a partir dele, que você receberá ferramentas para o estudo teológico, e compreensão das diferentes metodologias de trabalho, que permitem a assimilação dos resultados doutrinários e práticos, provenientes da reflexão teológica.
p.3Definido Teologia Bíblica
p.3Para iniciarmos nosso estudo teológico, é importante demarcar a teologia bíblica, como uma produção intelectualmente orgânica. Embora este conceito possa parecer em certa medida, estranho em um primeiro momento, afirmar que a teologia bíblica é orgânica, o uso do termo reflete a naturalidade com que os textos são organizados e formam, ao final, um discurso coeso. Em outras palavras, o papel da teologia bíblica do Novo Testamento é identificar, qual o tema principal da Nova Aliança, e como os subtemas, presentes nos 27 livros canônicos, corroboram para a fixação deste assunto essencial.
p.3A partir desta definição básica, precisamos problematizar alguns pontos. Em primeiro lugar, consideramos três metodologias teóricas para a produção teológica. Teologia exegética, é uma metodologia, que enfatiza o estudo de pequenas frações do texto sagrado, porções estas, que chamamos de perícopes. Essa metodologia utiliza-se, do idioma original em que foi escrito o texto bíblico, a estrutura e forma das perícopes, sua relação com outras porções do mesmo livro, análise da sintaxe e morfologia. Em quase todos os casos, uma perícope, possuirá um tema principal. Já ateologia bíblica, conforme explicamos acima, é o resultado da concatenação dos temas que a exegese descobriu em um determinado livro ou autor. Por último, teremos a teologia sistemática, que classifica e organiza os variados temas que foram descobertos pela teologia exegética e bíblica. Compreendemos, que não é possível existir a teologia sistemática, sem que haja a teologia bíblica, que por sua vez depende da teologia exegética para existir. A teologia bíblica, por não agregar todos os assuntos, textos, capítulos e versículos bíblicos dentro de uma mesmo conjunto temático, assim como faz a teologia sistemática, se torna mais desafiadora para aqueles que desejam uma forma coerente e coesa de investigação, contudo permite mais liberdade na aproximação da literatura e múltiplas reflexões a partir das perícopes.
p.4Teologia « Análise de perícopes E Xe gét ca individuais do Novo e Temas Teologia teológicos: L4: organizados Sistemática em conjuntos
FIGURA 1 - Metodologias Teológicas
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.4A teologia bíblica é a tentativa de estudar a contribuição individual de um dado escritor ou de um determinado período ao cânon da mensagem. Ela combina análise e síntese. A teologia bíblica é como uma construção de qualquer ponte, aprende vagarosamente à medida que a teologia procede de sua base histórica para a sua expressão como proposição de princípios (ZUCK, 2015, p.14).
p.5Outro ponto necessário para estabelecermos o fundamento do nosso estudo, é estipularmos qual a fonte primordial da nossa pesquisa. Faremos com base nos textos canônicos da Nova Aliança, ou seja nos 27 livros presentes no Novo Testamento, cuja reflexão estará sustentada pela revelação especial de Deus, aos escritores iluminados pelo Espírito Santo. Embora, essa declaração possa parecer um tanto óbvia, é preciso destacar que existem teóricos, com preferências destinadas a polemizar os textos do Novo Testamento, considerando a literatura do Novo Testamento, como uma produção exclusivamente inventada. Falaremos sobre estas metodologias, no próximo tópico.
Precisamos também, definir qual o tema teológico central norteará nossa investigação. Devido a amplitude do Novo Testamento, o tema que estará presente, desde os Evangelhos até a Revelação, será a obra da Salvação. Sem dúvidas, com enfoques diferentes, com autores e estilos literários diferentes. Entretanto, a obra da Salvação revela uma verdadeira espinha dorsal que agremia todos os subtemas presentes nas narrativas neotestamentárias.
p.6= REDENÇÃO
FIGURA 1 - A centralidade de Cristo na Teologia do Novo Testamento
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.6A Pessoa de Jesus Cristo é de central importância para a teologia cristã. Embora a “teologia” pudesse ter sido definida com “falar acerca de Deus” em geral, a teologia cristã confere um papel central a Jesus Cristo. A natureza desta papel é complexa e mais bem compreendida ao se considerar seus vários elementos. (MCGRATH, 2005, p.181).
p.7Encontramos no Novo Testamento, um farto material sobre a pessoa de Cristo e sua obra, que se apresentam de forma organizada teologicamente, nos escritos de Paulo. Contudo, uma elaboração mais sistematizada sobre a vida de obra de Jesus Cristo, remonta ao século Ill e IV da era cristã. Estes conceitos ganham o nome de cristologia.
p.7Para finalizar essa primeira etapa do nosso estudo, mencionamos o Cânon do Novo Testamento. A expressão Cânon deriva da palavra “regra” ou “vara de medir”, deste modo, o Cânon do Novo Testamento constitui-se em uma lista de livros que são classificados dentro de uma certa medida de livros inspirados. Os livros bíblicos do Novo Testamento são 27. Dois pontos se destacam em relação aos livros do Novo Testamento e sua teologia. Em primeiro lugar, é preciso fazer uma classificação dos gêneros literários dos livros e consequentemente de seus conteúdos e intenções dos seus autores. Veja a classificação literária do Novo Testamento no quadro abaixo:
p.7CLASSIFICAÇÃO EVANGELHO HISTÓRICO CARTAS REVELAÇÃO
p.7ASSUNTO Reino de Deus Expansão daEnsino para aEsperança para Igreja Igreja a Igreja
p.7Epistolar
p.7Gênero.. uai Literário nto: Narrativo Narrativo Epistolar Apocalíptico
p.7Profético
p.7Aspectos Vida Morte e. Cristo envia oEfeitos da nova A história no Teológicos Ressurreição. Espírito Santo vida em Cristo. controle de Messias Deus
QUADRO 1 - Gêneros literários do Novo Testamento.
p.8O segundo aspecto que se sobressai na divisão literária do Novo Testamento, está na potencialidade na produção de teologias. Enquanto alguns livros e gêneros literários há abundante material para se produzir teologias, como o exemplo da carta de Paulo aos Romanos, temos também uma epístola do próprio Paulo para Filemon, de cunho mais pessoal, do que doutrinário. Deste modo, ao se estudar a Teologia do Novo Testamento é preciso classificar os conteúdos e assuntos por seus autores, interlocutores e destinatários. Os Evangelhos, possuem problemáticas particulares, como o problema sinótico e a tensão interpretativa do significado teológico do Reino de Deus. A Teologia Joanina destaca-se pela variedade de gêneros literários, sendo um Evangelho, três Cartas e um livro Profético.
p.8A teologia é a tentativa de dar sentido à revelação de Deus, dentro dos aspectos humanos, por este motivo, ela terá aspectos da particularidade humana em condições de espaço e tempo. No caso da teologia bíblica, é preciso considerar a ideia (ideologia) do autor, que se destaca na sua forma de escrita e estilo, preferência por termos e linguagem, e percurso de temas representados em sua escrita. Os temas destas teologias apresentadas no Novo Testamento, são diversas, como teologia política, teologia e responsabilidade pessoal, teologia e o futuro. Falaremos a seguir, sobre um panorama da teologia do Novo Testamento.
p.8Panorama histórico da Teologia do Novo Testamento
p.8Sabemos que a Teologia, é uma ciência e como ciência, precisa seguir uma metodologia ou metodologias de estudo. Metodologias no plural, significa que, a depender da abordagem teológica, será usada ferramentas diversas que influenciam no resultado final da produção teológica. A teologia bíblica, é resultado de uma metodologia, denominada exegese (gr. extrair, retirar) sendo uma técnica de análise, onde se busca o sentido original do discurso. Somada a exegese, temos também a aplicação de uma metodologia histórica contextual, onde se busca conhecer a cultura e literatura da época de escrita do texto bíblico.
FIGURA 1 - Metodologia da teologia bíblica.
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.9A teologia bíblica enquanto disciplina acadêmica é consideravelmente nova com seu surgimento na modernidade. Contudo, é possível identificar resquícios da metodologia na história eclesiástica. No cristianismo primitivo, identificamos a própria adesão a certos livros e não outros, como uma forma de classificação e organização da literatura sagrada, sendo a apostolicidade (autoridade proveniente da autoria dos apóstolos) a metodologia usada para tal tarefa.
p.9No período medieval, além do caráter bíblico, entra em cena a premissa dogmática do magistério, com o aparecimento das primeiras teologias católicas, se utilizando de uma exegese tradicional. Com a Reforma e o surgimento do protestantismo, a exegese ganha dois postulados importantes, que irão nortear todas as ciências bíblicas no início da modernidade. O primeiro deles afirma que “a Escritura interpreta a Escritura”. O segundo, define Cristo na centralidade hermenêutica da Bíblia. Essa ênfase favoreceu a ciência exegética, como carro chefe dos reformadores (Goppelt, 2003).
p.10O iluminismo, fruto da modernidade, irá complexificar os estudos bíblicos, com a inserção de dois fatores, a análise histórica e filosófica da literatura bíblica. O iluminismo foi um movimento intelectual nascido no século XVIII, com críticas políticas ao absolutismo e com forte valorização da razão. No afã de explicar os procedimentos humanos pela racionalidade, surgiu a teologia acadêmica, ou teologia liberal e na filosofia, o deísmo como consequências desta abordagem, onde se buscava dar respostas racionais aos relatos antigos, muitos deles baseados na religião. Os precursores desta nova metodologia, foram os cientistas alemães Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) e Hermann Samuel Reimarus (1694-1768).
p.10Medievalismo e Enfase — Crer para conhecer
p.10Iluminismo e Enfase - Conhecer para crer
FIGURA 1 - Tendências teológicas em contraste
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.10A pesquisa destes estudiosos, se pautava no exame da historiografia de sua época, e pretendia encontrar os possíveis vestígios da realidade histórica de Jesus, ou seja, se Jesus, realmente existiu enquanto ser histórico, ou fora criado pela imaginação de um grupo de judeus que estavam profundamente descontentes com o judaísmo. O nome desta disciplina, ficou amplamente conhecida, e até hoje é tema de acalorados debates sobre o “Jesus Histórico”.
p.11Essa metodologia enfrentou muitos problemas de ordem religiosa, porque no resultado deste processo, ficou claro que não existiam evidências concretas que convencessem tais pesquisadores da existência de Jesus na região da Galileia no século primeiro. Contudo, se era difícil provar cientificamente a existência de Jesus historicamente, era muito mais difícil provar a sua não existência.
p.11Já na virada do século XIX para o XX, ocorreu um enfraquecimento da metodologia histórica, para abordar a narrativa bíblica. Ganhou-se então, espaço para um retorno da exegese, contudo não aos moldes dos reformadores e sim uma proposta mais existencialista da realidade, a partir da filosofia de Soren Kierkegaard e Martin Heidegger (1889-1976). Os teólogos que se destacaram nesta nova fase, foram: Karl Barth (1886-1968), Paul Johannes Oskar Tillich (1886 - 1965) e Karl Paul Reinhold Niebuhr (1892 - 1971). A ênfase não estava mais perseguindo a comprovação da figura histórica de Jesus na História, mas sim, qual o sentido dos textos bíblicos? Se estes textos sagrados são ou não verdadeiros, isso não era o mais importante, mas sim, o que fazer com as concretizações éticas, qual é a mensagem essencial.
p.11Mencionamos, o teólogo mais conhecido da teologia bíblica do Novo Testamento no século XX, Rudolf Karl Bultmann (1884 - 1976), que fora influenciado também pela corrente filosófica do existencialismo. Em sua hermenêutica, Bultmann apresenta a relação entre a tradição do texto bíblico e o tempo atual do ser humano, destacando os elementos míticos bíblicos em seu significado original e salvífico (Bultmann, 1999), forma esta que ficou conhecida como demitologização. Bultmann revolucionou a teologia bíblica, pois a partir da sua metodologia, se propõe para a teologia a tarefa de desmitologizar a proclamação cristã, descobrindo a verdade que está inserida na concepção mítica do universo do Novo Testamento.
FIGURA 1 - Rudolf Karl Bultmann (1884 - 1976)
Fonte: O Explorador
p.13Nos últimos 50 anos, vimos surgir teólogos e teologias do hemisfério sul, que se voltaram para a bíblica, para a produção de uma teologia contextualizada. A teologia da libertação, é um bom exemplo disso. Pautada como temas da superação das mazelas sociais, propõe concretizações éticas e práticas, a partir dos textos bíblicos proféticos. Esse método de estudo bíblico, é pautado pela leitura popular da Bíblia, dando uma papel de protagonista para leigos, formando assim, uma teologia bíblica menos formal e acadêmica, mas com ênfase na realidade vivencial das comunidades. A proposição teológica mais explorada nesta perspectiva, é a libertação realizada por Deus, por meio da travessia do mar Vermelho pelos hebreus e orientados por Moisés e o estabelecimento da (aliança). Já no Novo Testamento, a obra de salvação realizada por Cristo, possui, além do caráter espiritual, uma versão altamente politizada, de um novo homem, que se relaciona na tensão do mundo, em suas mazelas e contradições.
FIGURA 1 - O problema da pobreza
Fonte: Pixabay/wjgomes
p.13Veja um resumo das abordagens teológicas do século XX.
Ênfase no resgate do Novo Testamento. Representante - Hermann Samuel Reimarus.
Ênfase filosófica das narrativas bíblicas. Representante -Rudolf Karl Bultmann.
Ênfase na libertação dos oprimidos. Representante - René Padilla.
Ênfase no logos divino. Representante - Karl Barth.
Ênfase na religião comparada. Representante - Paul Tillich.
Ênfase histórico-gramatical. Representante - George Lada.
p.15Em resumo, evidenciamos que a teologia bíblica é resultado de uma pesquisa alicerçada em uma metodologia. Descobrimos que a teologia bíblica liberal, ocorre quando se busca o sentido histórico do texto bíblico, as perguntas que motivam essa abordagem, são: Jesus, apresentado nos evangelhos, existiu historicamente? A teologia bíblia existencialista pergunta qual a relação do texto escrito e a mensagem de Deus ao homem? A teologia bíblica contextual, pergunta, quais concretizações éticas e pastorais do texto bíblico na realidade humana?
p.15Método e fontes
p.15Enquanto pesquisadores e estudantes, precisaremos considerar as múltiplas metodologias, ressaltando que as metodologias em seu caráter científico são tentativas de se chegar o mais próximo da realidade dos fatos. Para este livro, estaremos utilizando a abordagem da teologia exegética com ênfase no contexto dos escritores bíblicos e relevância dos temas e reflexões teológicas provenientes dos discursos presentes nas Escrituras, tendo como fonte teórica, a obra de George Ladd, em sua teologia do Novo Testamento, alternando fontes comparativas na medida em que os temas foram apresentados.
▶ Assistir ao vídeo da aula ↗p.16Sgren Kierkegaard foi um filósofo existencialista que de maneira crítica influenciou no surgimento da teologia moderna e liberal. Kierkegaard, afirmou duras críticas à teologia, que se pautava em dogmas e que enfatizasse apenas propostas meramente transcendentes. Para ele, o teólogo, para além das elucubrações metafísicas, precisava aterrissar os conceitos da teologia no solo da vida, na existência humana. Este modelo de abordagem inaugura uma teologia pautada na realidade existencial humana. Para saber mais, acesse:
p.18Conclusão
p.19Considero esta unidade que finalizamos, fundamental para a compreensão da disciplina. Nela, colocamos os alicerces para o fazer teológico, que poderá ser observado para a construção não só de uma teologia bíblica, mas sistemática, exegética e histórica. A produção de uma teologia bíblica está presente desde o início da igreja, mas como disciplina acadêmica, surge na modernidade, com as discussões iluministas sobre a natureza histórica dos textos bíblicos. A partir desta nova metodologia de estudo, houve uma disputa sobre a formação do Canôn, sobre a historicidade de Jesus, sobre a ideologia de Paulo, sobre o sentido de Apocalipse. Saímos desta unidade, com a clareza que os resultados e concretizações teológicas provenientes do texto bíblico, são resultados do uso de metodologias, que nos ajudam a não julgar o pesquisador mas sim seus métodos de análise.
p.19Referências Bibliográficas
p.19BULTMANN, Rudolf Karl. Demitologização: coletânea de ensaios. São Leopoldo: Sinodal, 1999.
p.19GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3º ed. - São Paulo: Editora Teológica, 2003.
p.19LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Editora Hagnos. São Paulo, 2003.
p.19McGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
p.19SOUSA, Domingos Salgado de. O repto de kierkegaard à teologia. Perspectiva Teológica, v. 55, n. 3, p. 803-824, 2023.
p.19ZUCK, Roy B. Teologia do Novo Testamento. 7º Impressão. CPAD: Rio de Janeiro, 2015.
A Teologia dos Evangelhos
p.20Introdução
p.20Olá, caro (a) estudante, nesta unidade vamos, estudar e conhecer, sobre os quatro primeiros livros do Novo Testamento. Vale ressaltar, que nossa divisão de estudos a partir daqui, será com base nos gêneros literários. Deste modo, nossa divisão de apresentação, se comporta como na lista de livros dispostas na Bíblia, com uma pequena mudança na unidade quatro, por conta de fins de organização dos conteúdos, trabalharemos com o livro de Apocalipse junto com Atos dos Apóstolos.
p.20Os Evangelhos, são tidos por muitos, como um material de fácil compreensão pelos leitores, pois constam das histórias de Jesus, seus milagres e seus discursos. Mas será que existe um ou várias teologias nestes livros? E porque existem semelhanças e diferenças narrativas de um mesmo evento histórico? Estes são pontos de problemáticas que precisamos considerar para avançarmos em nossos estudos.
p.20Conhecer a teologia dos Evangelhos é fundamental para a compreensão de todo o restante do Novo Testamento. Nos Evangelhos temos a narrativa dos principais eventos para a história da Igreja, na transição do Antigo para o Novo Testamento.
p.20Nossa unidade está dividida em três secções. Na primeira, discutiremos sobre o problema sinóptico, ou seja, responderemos por que existem tantas semelhanças de narrativas entre os três primeiros Evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas; e por que estes tanto diferem de João? Já na segunda parte, será compreendido o paradigma do Reino de Deus nos sinópticos. Na última parte, abordaremos exclusivamente a teologia de João.
p.20Bons estudos!
p.20Os Evangelhos Sinópticos
p.20Caro (a) estudante, você, em algum momento de seus estudos bíblicos, já se perguntou, como os Evangelhos foram escritos? Essa pode parecer uma pergunta relativamente simples de responder, pois para a maioria dos leitores da bíblia, Deus escolheu os quatro evangelistas, e deu a eles a capacidade de escrever iluminadamente pelo Espírito Santo, quase como se eles voltassem no tempo e pudessem reviver os principais eventos da vida de Jesus, do seu nascimento até sua ressurreição e ascensão. Contudo, existem outras formas de se pensar a origem literária dos evangelhos, onde a academia se debruçou para a análise de tais possibilidades.
p.21Ao todo, temos no Novo Testamento, quatro evangelhos, três com conteúdos muito parecidos, ao qual se denomina os evangelhos sinópticos (gr. semelhantes), e um singular. Mateus, Marcos e Lucas, são os sinópticos, por sua vez, O evangelho de Jogo possui conteúdos inéditos e bem particulares, sendo que apenas dois dos evangelistas, Mateus e João, foram discípulos e consequentemente testemunhas oculares do ministério de Jesus.
p.21Sinópticos: Mateus, Marcos e Lucas
p.21Conteúdos Conteúdo similares singular
FIGURA 1 - Classificação dos Evangelhos
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.21Os sinópticos têm adquirido maior investimento por parte dos teólogos, na tentativa de elaborarem uma teoria que faça sentido e que seja coerente a formação literária dos evangelhos. Ao longo dos séculos XIX e XX, foram elaboradas ao menos três grandes teorias sobre a formação dos evangelhos sinópticos: a) teoria da fontes; b) teorias das formas; e a c) teoria da redação.
p.21Teoria das fontes
p.21Nesta teoria, discute-se, principalmente, porque os evangelhos sinópticos possuem tanto material incomum, e porque existem divergências entre eles. Hale (1983, p. 42) apresenta eficazmente o seguinte diagnóstico,
p.22O problema Sinóptico entra em foco quando a seguinte estatística é observada: entre 94 e 95 por cento do Evangelho de Marcos é reproduzido em Mateus e Lucas. Dos 661 versículos contidos em Marcos, todos, exceto cerca de 30, são encontrados nos outros dois Sinópticos. A substância de 606 versículos pode ser encontrada em Mateus (correspondendo a 500 por causa de diferente disposição do conteúdo). Lucas reproduz cerca de 320 versículos de Marcos, incluindo 24 que Mateus não usou. Isto significa que, dos 661 versículos contidos em Marcos, somente 30 não aparecem nos outros dois Sinópticos.
p.22Perceba também, o valor percentual da intertextualidade entre os evangelhos e sua porcentagem distribuída entre as quatro literaturas:
p.22Peculiaridades Coincidência
Marcos 7% 93%
p.22Mateus 42% 58%
Lucas 59% 41%
p.22João 92% 8%
QUADRO 2 - Gêneros literários do Novo Testamento.
p.23Perceba a singularidade do evangelho de João, com 92% de peculiaridade em seu livro. Os estudiosos da teoria das fontes argumentam que uma fonte comum foi responsável pelo compartilhamento entre os demais sinóticos. No caso, tanto Mateus quanto Lucas usaram de Marcos como fonte para os seus escritos. Essa mesma teoria levanta a hipótese de uma segunda fonte, onde Mateus e Lucas se inspiraram, e que Marcos não teve acesso. Esta fonte foi chamada "Q”, da palavra alemã Quelle, que significa "fonte". Não houve acordo unânime quanto ao conteúdo da "Q", e um dos passatempos favoritos dos estudiosos do Novo Testamento é a reconstrução do documento "Q" (Hale, 1983). Perceba neste infográfico.
É resultado de um estudo hermenêutico comparativo entre os Evangelhos sinópticos, este estudo compreende que tantos os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, usaram de uma fonte comum para a produção dos seus livros.
É o considerado o primeiro Evangelho “oficial” escrito, sendo uma fonte primitiva e essencial para a formação dos escritos de Mateus e de Lucas.
Segundo a teoria das fontes, Mateus possui características semelhantes à de Marcos, projetando assim, uma possível correspondência entre estes dois Evangelhos. O material exclusivo encontrado em Mateus, possivelmente é devido a sua pesquisa histórica, entrevistas, relatos e fontes específicas.
Lucas parece ter um trabalho mais autoral, ou que faz um tratamento de interpretação das fontes. Contudo, ainda sim, é possível verificar verossimilhanças entre Marcos e a provável fonte Q.
p.24Existem ainda, outras teorias, que buscam identificar, não apenas duas fontes primordiais para a escrita dos evangelhos, mas uma multiplicidade de fontes. Contudo, essa abordagem não se sustenta academicamente.
p.24Teoria da forma e teoria da redação.
p.24Mais duas teorias se juntam nesta abordagem. A teoria da forma, é uma proposta de examinar os evangelhos, enquanto literatura elaborada pela mente criativa dos evangelistas. Nesta perspectiva, os escritores, a partir de alguns acontecimentos que ouviram pela tradição oral, inventaram contos, lendas e novelas. Já a teoria da redação, nasce como consequência da teoria da forma, porém neste último caso, é enfatizado ainda mais a criatividade dos evangelistas/escritores, onde eles não precisavam sequer da tradição oral para a formação dos extratos narrativos. Nesta abordagem é ignorada também as perícopes individuais, assim sendo, cada evangelho sinóptico, deve ser visto como uma única unidade, coesa e com a intencionalidade de se propagar uma ou no máximo duas teologias.
p.24Essas duas teorias, formam a base teórica e metodológica da teologia liberal do século XX e muito embora estes enfoques não sejam definitivos, são, sem sombra de dúvidas, bons materiais de pesquisa para os aspirantes à teologia do Novo Testamento.
FIGURA 1 - Teorias literárias dos Evangelhos
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.25O paradigma do Reino de Deus
p.25Dentre tantas as possibilidades de percursos temáticos nos evangelhos sinópticos, o Reino de Deus, é que se destaca dentre os demais. Na verdade, o tema Reino de Deus funciona como um grande “guarda-chuva” onde todos os outros índices temáticos se refugiam.
p.25O Reino de Deus, é o tema mais explorado pelos teólogos bíblicos do Novo Testamento. Existem tendências teológicas, que compreendem os desdobramentos do Reino, mantendo uma ênfase mais histórica e outros com uma perspectiva mais atual. A ênfase histórica, considera que as ações messiânicas do Reino de Deus, estiveram no campo do passado, onde as principais concretizações práticas, se deram no período bíblico. A tendência contemporânea, viabiliza ações práticas para o momento atual.
p.26O que difere abordagens contemporâneas sobre o Reino de Deus, é o modelo de atuação. Enquanto teologias com um viés sociolista, buscam a libertação dos pobres pela proposta libertadora do Reino de Deus, outra tendência, com pé no conservadorismo, aplica as concretizações do Reino de Deus, no âmbito da espiritualidade.
p.26Mesmo sendo uma unanimidade entre os estudiosos do Novo Testamento, o conceito de possui várias alternativas interpretativas. Tecnicamente, o termo Reino de Deus (Em grego: tob 0cob Basileia tou theou) designa um governo ou domínio em que tem Deus por soberano ou governante. Seu principal debate, paira sobre o caráter temporal do Reino, entre o presente do (já) e do futuro (ainda não) das concretizações das obras messiânicas. Também as ideias proféticas e escatológicas que não trazem necessariamente o termo, mas constroem a base sobre a qual este será colocado (Jeremias, 2008). É possível apresentar essa temática a partir de duas tensões principais: a) primeiro o Reino e sua questão temporal, presente e futuro; b) segundo, as implicações teológicas do Reino.
p.26O Reino chegou O Reino ainda não chegou plenamente
FIGURA 1 - A tensão teológica do Reino de Deus
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.27A vinda do Messias, foi elaborada, antes do Novo Testamento.É sabido que em todas as partes do Antigo Testamento, foi se criando a expectativa da chegada de outro novo momento, um avivamento para o mundo. Jesus é a materialidade das promessas dos profetas que vieram antes dele. O paradigma do Reino de Deus é a teologia que se estabelece nos Evangelhos, esse Reino não é da Terra para a Terra (Jo 18:36-38), mas é o Reino do Céu para a Terra (Mt 3:2). Sua temporalidade aponta sempre para o futuro, para o fim escatológico (Lc 17: 20-37), mas com realizações no presente: “Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus (Mt 12:28), sendo que o Cristo, possuía plena certeza do seu ministério como cumprimento escatológico das profecias do Antigo Testamento. Com a chegada deste Reino, Satanás foi limitado em suas atividades (Mt 12:29) mas não totalmente aniquilado, Jesus exerceu poder sobre as trevas, poderes malignos, doenças, natureza e sobre a morte, a partir das credenciais de seu ministério, enquanto agente do Reino de Deus. É interessante notar em conjunto com as obras magníficas do ministério de Jesus, seu discurso misterioso das verdades do Reino de Deus, através das parábolas (Mt 13:13-16). Isso se dá justamente porque no Novo Testamento o Reino é claramente proclamado para o futuro, quando Cristo vier em glória (Mt 25.34), ao mesmo tempo que é apontado como uma realidade presente ou, ainda, uma realidade na qual os seguidores de Cristo já entraram (Ladd, 2003).
p.27É preciso destacar, que o Reino de Deus, não pode ser identificado como sinônimo para a Igreja. O Reino de Deus é anterior à Igreja, e muito embora haja sinais evidentes dos Reino, na realidade concreta da Igreja, não existe, biblicamente expresso, conceitos que demonstram uma unidade exclusiva entre ambas.
p.28O Reino de Deus, produz efeitos na temporalidade. O reinado de Deus presente na Antiga Aliança, demonstrada na sua luta contra as intenções de destruição do povo escolhido pelas nações, que no Novo Testamento se apresenta na libertação e anúncio da vida nova, terá sua tensão intensificada, na medida que os eventos escatológicos vão se cumprindo e a humanidade se encaminhar para o desfecho vindouro. Ladd (2003), apresenta um esquema bem interessante de visualização desta temporalidade:
p.29Reinado de Deus = Reino de Deus
p.291 I Cristo Cristo H— >>> O Século — Futuro
p.29A Era Presente
FIGURA 1 - A temporalidade do Reino de Deus
Fonte: (LADD, 20053, p.93)
p.29O Reino de Deus, teologicamente, terá pleno sentido, quando interpretado escatologicamente. Dado a este fato, muitas correntes escatológicas, pretenderam estabelecer uma agenda do fim. As duas principais correntes teológicas que fizeram isso foram o pré-milenismo e o dispensacionalismo. É claro que, dentro dessas duas correntes, há muitas formas diferentes de se fazer tal agenda, algumas bastante exageradas e que deram motivo para uma forte desconfiança em relação a esse tipo de ideias teológicas. No tocante à cronologia do fim, sempre é bom lembrar daquilo que Jesus falou aos discípulos: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai” (Bíblia, Mateus, 24,36). [...] então os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade. (BÍBLIA, Atos dos Apóstolos, 1,6-7).
p.29Embora a proposta do Reino de Deus possa passar despercebida por muitos cristãos, sua identificação é que rege sua esperança, espiritualidade e missão.
p.30Rudolf Bultmann, foi um teólogo do século XX, que revolucionou, em seu tempo, o método de hermenêutica Bíblica. Sua principal contribuição para este campo de estudos, foi o processo de demitologização dos textos do Novo Testamento, que se entende, por separar, dentre os relatos bíblicos o que poderia ter acontecido conforme o relato dos autores bíblicos e que era considerado como lendas. Conheça a Teologia de Rudolf Bultmann em 5 minutos:
p.30Cristologia Joanina
p.30Os escritos joaninos, são marcados pela presença de elementos apologéticos. João polemiza com ideias gnósticas contemporâneas do século primeiro, e visava o estabelecimento de uma doutrina critológica na preservação das comunidades cristãs. Também, principalmente seu Evangelho, é fonte de debate com as correntes do judaísmo. A intenção principal do Evangelho, por conseguinte, é fazer com que o crente compreenda existencialmente, o que este Jesus, em quem ele crê, significa para a vida.
p.30O quarto Evangelho, escrito por João, apresenta, à semelhança dos sinópticos, conteúdos do ministério de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição. Entretanto, para um leitor atento, logo identifica nuances no estilo e forma de escrita. João, não menciona eventos do nascimento de Jesus, ensinamentos por parábolas ou exorcismos, sua ênfase sobressai nos diálogos de Jesus com pessoas individuais e grandes ajuntamentos. A teologia joanina, é fundamentada na revelação do Messias. A leitura do Evangelho de João nos mostra que, para viver plenamente a fé, precisamos conhecer bem a Jesus, pois o Espírito (Paracleto) que nos foi dado é o Espírito de Jesus, que nos faz viver como o Messias Jesus viveu. A chave desse conhecimento é a prática do amor: quando amamos a Deus e ao próximo, o próprio Deus habita em nós.
p.30O dualismo de João marca seu estilo literário, com contrastes e jogo de palavras, subjetivismo, ironia e simbolismo. Vejamos alguns dos conceitos teológicos apresentados por João:
p.31Eu Sou Título messianico, que apresentava o Cristo Divino acompanhado de sua missão de redenção (Jo 4:26)
p.31(eyw
É o ser pré-existente, o agente próprio da Criação, o agente que se
p.31fez carne, aquele que revela a Vida, a Luz, a Glória de Deus. Sua Logos (Aóyoç) Cristologia também abarca os conceitos de Messias, Filho do
Homem, Filho de Deus (Jo 1:1-3)
p.31Vida eterna Cristo veio para presentear a humanidade com a eternidade, não (auúvia Tur) À pelo mérito do conhecimentos, como afirmava o gnosticismo, mas pela graça salvadora de Deus no Messias (Jo 3:15-18)
Tema central no esquema de esboços para João. Muitos levantam a
p.31Verdade hipótese que João, pudesse ter uma formação gnóstica, pois estava sempre reforçando este conceito teológico, mas ao que tudo indica, era que João estava combatendo essa corrente filosófica ao final do
século primeiro (Jo 14:6)
p.31É o confortador, aquele que se torna forte, fortalecedor, advogado, intérprete, mediador, instrutor. Ele é o outro Jesus, porque Jesus
p.31Espírito Santodisse: “Não vos deixarei órfãos!”. A missão do Espírito Santo em
p.31(MNapákAntov)João é interior, expressa na metáfora dos rios de água viva, capacitando, habitando permanentemente, ajudando a pregar. Para com o mundo é um acusador.
QUADRO 3- A temporalidade do Reino de Deus
p.32João mescla eficazmente seu estilo de escrita com sua teologia, revela o segredo messianico para uns, e esconde para outros. A luz em João, não é um mero artifício natural, mas possui um peso simbólico/teológico, uns veem a Luz e saem das trevas, outros rejeitam a Luz e permanecem nas trevas, assim como ele faz com a água, caminho, verdade, visão, amor, vida, entre outras expressões que jamais podem ser consideradas como palavras aleatórias e sim, com um rico e profundo significado ao todo do texto. Tudo isso para responder a pergunta soteriológica do livro: quem é Jesus?
p.32A teologia joanina, em essência, é cristológica. A Pessoa de Jesus Cristo está no centro de tudo que o apóstolo escreve. Dada a pouca ênfase apresentada por João, sobre assuntos antropológicos, pneumatológicos ou escatológicos, a proposta primordial de João é, sem dúvida nenhuma, Jesus e sua obra salvadora (Zuck, 2015).
FIGURA 1 - A natureza evangelística de João.
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
▶ Assistir ao vídeo da aula ↗p.33Neste artigo, você poderá conhecer um pouco da abordagem do livro de João sobre a ótica da crítica da redação, ou seja, uma abordagem diferente do que estamos tratando neste material. A MEMÓRIA DE JESUS E A MANIFESTAÇÃO DO PAI NO QUARTO EVANGELHO. Acesse em:
p.35Conclusão
p.36Muito bem, caro (a) estudante, chegamos ao fim da segunda unidade. Aprendemos sobre as diversas teorias possíveis para a formação dos Evangelhos, considerando as fontes e sua natureza literária. Foi mencionado, duas das principais teologias dos Evangelhos: 1) O Reino de Deus (presente e futuro, o “já” e o “ainda não”). 2) A presença da doutrina da salvação e cristologia em João. Os Evangelhos, mesmo sendo documentos de razoável assimilação, constituem-se em uma gama de materiais complexos que precisam ser analisados com a devida atenção e calma.
p.36Esperamos você, na próxima unidade!
p.36Referências Bibliográficas
p.36DODD, C. H. As parábolas do Reino. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.
p.36FIGUEIREDO, P. A questão do logos e os discursos de Jesus no Evangelho de São João. Edições Universitárias Lusófonas, 2008.
p.36JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Hagnos, 2008
p.36Hale, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Tradução de Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1983.
p.36LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Editora Hagnos. São Paulo, 2003
p.36ZUCK, Roy B. Teologia do Novo Testamento. 7º Impressão. CPAD: Rio de Janeiro, 2015
A Teologia das Cartas
p.36Introdução
p.37Olá, caro (a), estudante, que bom que já chegou até aqui em seus estudos! Nesta Unidade, vamos descobrir que a grande parte das doutrinas cristãs são provenientes dos conteúdos das cartas presentes no Novo Testamento. Mas por que será que isso acontece? Será as palavras de Paulo, mais relevantes ou mais importantes que a palavra do Próprio Jesus, anunciada nos Evangelhos? Outro questionamento a partir das cartas, é sobre sua distância temporal, entre nós e os documentos do primeiro século, será que as doutrinas provenientes destes textos, que são frutos da realidade de igrejas na Judeia, Ásia e Europa tem alguma relação com a nossa teologia atual? É sobre este tema que está organizada a nossa unidade. Falaremos sobre as cartas como documento canônico e teológico, sobre o pensamento e teologia de Paulo, e por fim, um panorama a respeito das cartas gerais. Tenhamos todos um bom estudo.
p.37As cartas como documentos do Novo Testamento
p.37Muitos acreditam que os Evangelhos foram os primeiros documentos escritos pela Igreja, contudo, a pesquisa histórica nos mostra que as cartas foram escritas antes mesmo da formação dos Evangelhos. No período do império romano, as cartas eram um método de comunicação eficaz para o trânsito de informações, além das estradas que permitiam, em certa medida, boa velocidade para os mensageiros. No contexto do Novo Testamento, existiam cartas abertas, documentos públicos, com informativos gerais para as cidades e províncias. Já as epístolas, eram documentos particulares com informações e declarações restritas (Hale, 1983). Os cartas do Novo Testamento, possuem este caráter público e comunitário: "Vocês vêem, eu tenho uma maneira de escrever o que acho que será lido por aqueles a quem envio minha carta, e outra maneira de escrever o que acho que será lido por muitos" (Gl 3:1). É pelo conteúdo das cartas, que a doutrina da igreja cristã primitiva é forjada. Sendo esta motivo de debates e dispostas exegéticas em todos os períodos da Igreja, seja pela ala teológica, eclesiológica, ou política.
p.38Particular Público
p.38Individual Estrutura literária
FIGURA 1 - Diferença entre cartas e epístolas.
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.38As cartas no Novo Testamento se destacam como documentos com uma dose considerável de argumentos normativos. Diferente dos Evangelhos, que possuem conteúdos de cunho descritivo, narram fatos, as cartas tanto de autoria Paulina quanto dos demais escritores, delegam à igreja, em suas diferentes realidades e situações, normas e regras para o funcionamento da igreja, possuindo uma imensa carga teológica Fee & Stuart, (2022). Mencionamos o caso da Carta de Paulo aos Romanos, que é um patrimônio da cristandade, considerada a primeira obra de teologia sistemática escrita, por onde é desenvolvida a doutrina da salvação.
p.38As cartas são divididas, a princípio, em dois grandes grupos: 1) Cartas de Paulo; 2) Cartas Gerais. Os autores das cartas, encaminham para destinatários individuais e para igrejas em geral. As cartas possuiam uma particularidade em sua escrita, conforme destaca Hale (1983, p. 145),
p.39A maior parte das cartas era escrita por um escriba profissional, chamado amanuense. Se a carta era um tanto extensa, o amanuense provavelmente colocaria o ditado numa forma de taquigrafia e posteriormente o transcreveria numa forma mais requintada. O remetente então colocaria sua assinatura e encarregaria um mensageiro, através de quem a corta seria enviada. Se o mensageiro fosse um amigo de confiança, talvez o remetente lhe daria alguma outra informação ou instrução para entrega oral pessoal (ver Ef.
p.39Sobre a composição das cartas, destacasse,
p.39A carta usual começaria com o nome do remetente e um título que o identificaria ao receptor, cujo nome também apareceria na saudação introdutória. Então seguiria a saudação normal de “alegria” ou “graça” (os judeus usavam o termo “paz”. Uma oração de graças e petição pelo receptor seria então escrita. Depois do corpo da carta, as saudações finais seriam escritas pela mão do remetente, se possível. A tinta era geralmente de tipo inferior e tinha que ser molhada constantemente. O papel era de papiro, numa forma enrolada. O amanuense escrevia no rolo de papiro e o cortaria no número de “páginas” necessárias. As cartas de uma página seriam, então, enrolados e dobradas, depois amarradas e seladas com cera. (HALE, 1983, p.145).
p.40Veja a lista de cartas no Novo Testamento.
Cartas Teológicas de Paulo Cartas Pastorais e Paulo Cartas Gerais
Romanosl e Il CoríntiosGálatas Hebreus Efésios le Il Timóteo Tiago Filipenses Tito le Il Pedro Colossenses Filemom Illelll João le Il Tessalonicenses Judas
QUADRO 4 - Cartas do Novo Testamento
p.40As cartas paulinas: a nova humanidade
p.40Paulo, é com toda a justiça, considerado o maior intelectual da história da Igreja, um homem com uma formação no judaísmo e conhecedor do mundo do mundo latino/helenístico em seu tempo, Paulo foi responsável pela sistematização da maior doutrina do cristianismo, a justificação pela graça. A partir dos escritos paulinos, a igreja, até hoje se debruça para a compreensão dos desdobramentos teológicos, filosóficos e eclesiásticos. Paulo, como bem sabemos, além do pilar intelectual, também lançou as bases para a missiologia de todos os tempos, vivendo toda a sua vida após a conversão, para as missões, tarefa esta, que o forjou e lhe ofereceu a fonte para. Sua teologia além de sólida e profunda, foi reformadora, pois precisou desafiar o judaísmo vigente em seus dias, até mesmo com suas convicções antigas baseadas na religiosidade e cultura do seu povo.
p.41Judeu /
p.41Fariseu Cristão
p.41Missionário
FIGURA 1 - Formação intelectual de Paulo
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.41Os grandes temas teológicos presentes nas cartas de Paulo, ressoam a partir da cristologia, ou seja, da doutrina de Cristo, tais como, a justificação pela graça, a expiação de Cristo, o viver em novidade de vida, a promessa escatológica. Entretanto, para devido a proposta deste material, estaremos limitando a apresentação de um tema teológico em Paulo, que é a nova humanidade a partir da restauração de Cristo.
p.41Paulo faz diversas referências sobre o conceito de nova vida, novo homem, nova humanidade. Este conceito tem como base doutrinária, a explicação dentro da estrutura do livro de Romanos. “Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum. Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.1, 2)
p.42A importância desse pronunciamento está, antes de tudo, no fato de que nas palavras “nós os que para ele [o pecado] morremos” não é denotada uma realidade ética ou mística. Como fica aparente pelo contexto como um todo, não se trata de uma questão de morrer para o pecado num sentido metafórico (conversão ou algo do gênero), mas sim, da participação da Igreja na morte e no sepultamento de Cristo, no sentido histórico-redentor singular da palavra (Ridderbos, 2004,
p.42A nova humanidade é constituída do coletivo de pessoas que receberam individualmente os efeitos da salvação na fé em Jesus Cristo. Essa mesma realidade é expressa não apenas no fato de a Igreja ter morrido, ter sido crucificada para o pecado - mas também “para o mundo”, “para a lei”, “para os rudimentos do mundo”. Deste modo, a ideia não é de que Cristo morreu “pelo” ou “para a expiação do” pecado (no sentido de justificação e reconciliação), mas de que ele morreu, de uma vez, para o pecado (considerado como uma autoridade que exerce poder e faz exigências), libertou-se e escapou dele por sua morte, assim como agora, por ter ressuscitado, ele vive para Deus, às suas ordens e a seu serviço (Ridderbos, 2004).
p.43MORTOS PECADO
p.43PARA O
p.43NOVA
p.43HUMANIDADE
p.43VIVOS Livre do Pecado serviço
FIGURA 1 - Efeitos da nova humanidade
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.43A nova humanidade, se destaca por sua alteração fundamental, na imaginação, pensamentos e desejos, é um reordenamento da vontade, que se separa do que Paulo chama de homem carnal: “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus.” (Rm 6.11).
p.44Na máxima paulina para esta nova realidade é sintetizada, estar no mundo mas não ser do mundo, não participar daquilo que diminui ou invalida os efeitos da graça de Cristo na nova vida.
p.45Em Colossenses 2.20 onde é perguntado à Igreja como, tendo morrido “com Cristo para os rudimentos do mundo”, ela ainda permite que seja imposta sobre elas toda sorte de ordenanças como se vivesse no mundo. Os “rudimentos do mundo” são, mais uma vez, os princípios legalistas, chamados em Gálatas 4.9 de “rudimentos fracos e pobres”, pois não podem salvar o homem (cf. Rm 8.3), mas nem por isso deixam de ser tiranos e manter o homem cativo (G1 4.3). Contudo, os crentes agora morreram para esses rudimentos com Cristo, pois ele preparou um outro caminho mediante o qual pode-se encontrar a salvação. (Ridderbos, 2004, p. 246).
p.45No que se refere à sua vida na terra, a Igreja é determinada, governada e sustentada do céu. Existe um elo de ligação que nutre este relacionamento, vínculo estabelecido pela comunhão do crente com o Espírito Santos um modo de vida da Igreja no fato de que ela despojou-se do velho homem e revestiu-se do novo homem, que foi criado segundo Deus (Ef 4.24; CI 3.9, 10). Deste modo, ser nova criação, por um lado é viver em liberdade, não ser mais escravo do pecado, ser livre em Cristo, que também é a revelação dos filhos de Deus (Rm 8.19; CI 3.4).
p.45É uma norma essencial e importante, de que a nova humanidade, como “segundo homem”, seja colocado em contraste com o “primeiro homem” (ICo 15.21). Existe na nova realidade uma luta constante entre a nova natureza e a velha, tal combate é definitivo para explicar a qualidade de vida nova, proposta por Paulo. Portanto, o coração é, por um lado, o ponto de impacto do Espírito Santo e é sobre ele que recai a grande decisão; no entanto, também fica claro que a renovação do Espírito não se restringe ao coração do homem interior, mas tem a intenção de, a partir deste, determinar também toda a sua humanidade (Carson, Moo, Morris, 2014).
p.45Com respeito à renovação do homem, isso diz duas coisas: primeiro, que o novo caráter de homem concretiza-se já no presente. Mas o salvo necessitará exercer esse dom e nessa renovação pelo Espírito os crentes já são, portanto, selados; nela recebem a redenção perfeita (2Co 1.20-22; cf. 5.5; Ef 1.13, 14). Essa manifestação da nova vida, na carne, é uma prova de seu caráter provisório. Por esse motivo, pode-se falar do caráter oculto bem como da revelação da nova vida no presente (Cl 3.3; cf. Rm 8.19; Fp 3.21).
p.46Existe, contudo, uma tensão inerente a esta realidade. A de que, o homem está se relacionando com duas formas de existência. Uma na esfera humana e outra na espiritual, com as suas devidas singularidades. Paulo sente em sua carne as demandas da existência humana ao mesmo tempo que se alegra pela providência divina que a ele sustenta. O Espírito Santo, é o que sustenta a nova humanidade, conforme se destaca em Romanos 8: 1-2: Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.
Sistema de ritos religiosos e culturais do judaísmo, instituídos pelo período da legislação de Moisés, logo após a saída do povo hebreu do Egito.
Condição humana após a Queda do homem no Éden, alterando todas as faculdades humanas, tornando o homem tendencioso para o distanciamento entre Deus e a humanidade.
Ação objetiva de Cristo na vida das pessoas que passaram pelo novo nascimento, mudando a disposição imediata para o pecado, para uma virtude de obediência à Deus,
Comportamentos ativos e reativos do cristão, baseados na obra transformadora da graça e motivadas pelo Espírito Santo.
p.47O PRINCÍPIO DA ERA DA IGREJA PRIMITIVA DOCUMENTÁRIO HISTÓRICO. O princípio da história da igreja, é marcado por intensa perseguição. A primeira perseguição foi de caráter religioso, pelos judeus. Já a segunda perseguição foi estatal, pelos imperadores romanos. Para saber mais, acesse:
p.47As cartas gerais: a prática cristã
p.47As cartas gerais possuem uma diversidade de estilos, seus temas estão ligados a vida cotidiana da igreja, direcionadas para colaboradores do evangelho ou comunidades em regiões da Ásia Menor. Nesta seção, não iremos abordar os pormenores de cada carta, mas resumidamente, apresentamos os documentos com maior conteúdo doutrinário e o contexto destas cartas.
p.47A Epístola aos Hebreus não é igual a nenhum outro livro do Novo Testamento. Ela começa como um tratado, continua como um sermão e conclui como uma carta. seu conteúdo é apresentado em forma de homilia, sobre superioridade de Jesus sobre o judaísmo, em todos os aspectos da vida religiosa, deve ter sua aplicação prática no viver diário do seguidor de Jesus. Após uma advertência a não se negligenciar a oportunidade de ver Jesus pelo que ele realmente é (10:19-39), o autor dá exemplos do viver real pela fé e maturidade espiritual dos herois do Velho Testamento (11:1-40). As vidas destes pais da história do povo judeu demonstram o caráter da fé no viver diário e a possibilidade de se viver de tal maneira (Broadus, 1983). O melhor exemplo, todavia, é Jesus mesmo, que, tendo completado seu ministério na terra e agora intercedendo no céu por nós, virá outra vez. À certeza de sua volta é um estímulo para o crente crescer na fé (12:1-
FIGURA 1 - Quem é o autor de Hebreus?
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.48A Epístola de Tiago está em primeiro lugar no grupo de sete livros do Novo Testamento denominado as Epístolas Gerais ou Católicas. As igrejas evangélicas estiveram hesitantes, por razões óbvias, em usar o termo "católicas" na descrição destas sete cartas. O assunto básico da primeira divisão é a verdade contrastada com a hipocrisia ou imitação. Tiago afirma que a realidade na vida cristã é e tem que ser distinta da falsidade ou imitação.
p.48Este contraste entre a realidade e a falsidade é visto em quatro aspectos diferentes da vida cristã: 1) no caráter (1:2-18); 2) na adoração pública (1:19-27); 3) no amor (2:1-13); 4) na fé (2:14-26). A segunda divisão, 3:1-18, refere-se aos pretensiosos, que querem ser mestres. Tiago afirma que um mestre leva sobre si uma grande responsabilidade e um perigo correspondente (3:1-12). O uso da facilidade de falar deve ser guardado em todo o tempo; a língua é difícil de ser controlada, e o único modo de controlar a língua e ser um bom mestre é ser capaz de distinguir entre a sabedoria deste mundo (3:13-16) e a verdadeira sabedoria, proveniente de Deus (3:17,18).
p.49A última seção, 4:1-5:20, fala do mundo, que está em oposição a Deus, e como o cristão deve viver nesta comunidade antagônica. Tiago declara que uma pessoa que faz do prazer o alvo da vida está em oposição a Deus (4:1-10). O prazer, como um fim em si mesmo, ocasiona dissenções, brigas civis e guerra (4:1,2), tira a única fonte de verdadeira satisfação na vida (4:3) e é adultério espiritual (4:4).
p.49O cristão deve fazer todo esforço para escolher entre Deus e o mal, como o fator controlador da vida (4:5,6). Aquele que verdadeiramente se submete ao Senhor terá alegria real (4:7-10). Há uma diferença, diz o autor, entre a submissão real e a presunção (4:11-5:6). A vida é incerta demais, e o cristão não deve usurpar a prerrogativa de Deus de julgar, planejar o futuro ou oprimir o pobre. Segue (5:7- 20) uma exortação para a verdadeira conduta cristã num mundo que passa. Estes versículos são várias exortações à paciência e à indulgência, até a vinda do Senhor (5:7-12), e a atividades dentro da comunidade: oração, louvor, visita aos doentes, confissão dos pecados e restauração dos inconstantes (5:13-20)
FIGURA 1 - A teologia prática de Tiago.
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.50A epístola de Pedro declara ter sido escrita pelo apóstolo Pedro, 1.1, um “ancião”, que foi testemunha ocular dos sofrimentos de Cristo, 5.1. Ele tem um companheiro seu “filho” Marcos 5.13. Uma forte tradição atribui esta epístola ao apóstolo Pedro que usou, como seu amanuense, ou secretário, Silvano (Silas; 5.12). 1.1. Dualismo Petrino O eruditismo recente tem enfatizado a similaridade na comum divisão de Pedro e dos sermões em Atos. O presente, no entanto, é a tensão escatológica entre o presente e o futuro, que não é meramente cronológica, mas também soteriológica, 1.11. A morte de Cristo não foi um mero evento histórico, mas um evento predestinado por Deus antes da fundação do mundo, 1.20. Através de sua morte, Cristo inaugurou o “fim dos tempos”, 1.20.
p.50A Ressurreição de Cristo Partilha deste caráter escatológico, pois o Cristo ressuscitado foi para o céu, Ef 1.22. Isto significa que Cristo já assumiu sua lei messiânica à mão direita de Deus, onde ele tem que reinar, 1 a Co 15.25. A ressurreição de Cristo não é simplesmente um evento do passado; é um evento em virtude do qual todo aquele que crê pode, em tempo subsequente, entrar em novidade de vida, através da proclamação das boas-novas, 1.23. 1.3. Escatologia Assim, a escatologia desempenha um grande papel na epístola. Pedro não usa a palavra (parousia), mas fala, várias vezes, da revelação (apokalypsis), de Cristo, 1.7,13; 4.13; 5.4. O contraste entre o mundo mau e o céu é particularmente forte e desempenha um papel essencial no pensamento petrino, 1.14,15,18,20; 5.9; 4.3; 2.5,9,11; 3.1; 2.18.. A Vida Cristã Há duas ênfase notáveis, em Pedro, quanto á vida cristã. A primeira é a firmeza no sofrimento. Sofrer é a experiência normal do crente, porque o mundo, para ele, é uma terra estranha, 4.13. A Segunda é a do bom comportamento (o verbo agathopoieo, “fazer o bem”, ocorre quatro vezes em Pedro - 2.15,20; 3.6,17 - mas em nenhum lugar em Pedro).
p.50Descubra toda história e cultura que a Bíblia carrega O acervo do museu abrange um período de mais de 4500 anos com artefatos que permitem conhecer melhor o mundo bíblico. Saiba mais em:
p.51Cinco livros do Novo Testamento são atribuídos ao apóstolo João: O Evangelho de João, o Apocalipse e as três chamadas Epístolas de João. Estes cinco livros, conhecidos como a literatura joanina, contêm os três tipos de literatura encontrada no Novo Testamento: histórica, epistolar e apocalíptica. As três Epístolas estão incluídas no grupo de escritos neotestamentários denominados Epístolas Gerais. Esta classificação pode ter sido útil para separar e identificar os vários livros do cânon, mas as três Epístolas, na realidade, não incidem na categoria de gerais ou universais (católicas).
p.51A primeira não tem a característica costumeira de uma carta (identificação introdutória do autor e receptores, encerramento com despedida) e a segunda e a terceira são breves, pessoais e dirigidas a leitores específicos. As três Epístolas são fortemente reminiscentes do Evangelho de João e, como este, nunca cessaram de fazer arder os corações dos cristãos com o tema central do amor. Como o quarto Evangelho, elas são de estrutura simples, mas de pensamento profundo. A teologia e o pensamento destas Epístolas se tornam mais importantes no estudo do Novo Testamento e mostram as ameaças de heresia e do abuso de autoridade, como o fazem poucos outros livros do Novo Testamento.
p.51Os temas teológicos das cartas pastorais versam, desde a volta de Cristo (parousia), a unidade sacramental da igreja, fé e obras, Cristo o Único Mediador.
▶ Assistir ao vídeo da aula ↗p.53Conclusão
p.54Chegamos ao final de uma unidade caro (a) acadêmico (a), nesta etapa de nossos estudos, verificamos a teologia das cartas do Novo Testamento. Fizemos a exposição de um tema teológico na perspectiva paulina, sobre a nova humanidade e seus reflexos na realidade cristã. Por fim, apresentamos propostas teológicas em algumas cartas gerais, cuja proposta foi a vida cristã a partir da vivência do Evangelho. As cartas eram documentos circulares que faziam o esclarecimento do viver e pensar na nova mentalidade cristã. Estes documentos, embora visassem respostas objetivas aos problemas da Igreja, se tornaram fontes quase inesgotáveis de teologias e debates.
p.54Referências Bibliográficas
p.54CARSON, D. A., MOO, D. J., MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova: São Paulo, 1997.
p.54FEE, Gordon; STUART, Douglas. Entende o que lês?: um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. Vida Nova, 2022.
p.54Hale, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Tradução de Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1983.
p.54RIDDERBOS, Herman. A teologia do apóstolo Paulo: a obra definitiva sobre o pensamento do apóstolo dos gentios. Tradução de Suzana Klassen. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
p.54ZUCK, Roy B. Teologia do Novo Testamento. 7º Impressão. CPAD: Rio de Janeiro, 2015
Teologia de Atos e da Revelação
p.54Introdução
p.55Olá, estudante! Chegamos à última etapa do nosso estudo. Nesta unidade, abordaremos sobre duas formas de literatura do Novo Testamento. O gênero narrativo com o livro de Atos dos Apóstolos e revelação com o livro de Apocalipse. Por fim faremos uma abordagem sobre dois temas ligados a estes estilos literários. Primeiro sobre a pneumatologia - atuação do Espírito Santo na Igreja. Segundo sobre a escatologia, em especial sobre a natureza da relação entre Israel e a Igreja e as teorias escatológicas sobre o milênio e a volta de Cristo. Algumas problemáticas situarão nosso estudo, como o Espírito atuou na influência sobre os cristãos? A igreja estava totalmente condicionada à vontade do Espírito? Quais as diferentes vertentes que explanam sobre a volta de Cristo e se o milênio é literal ou simbólico? Bons estudos!
p.55Atos e Apocalipse - Contexto e Literatura
p.55O livro de Atos dos Apóstolos, é um documento peculiar no Novo Testamento, pois narra a história selecionada do nascimento da Igreja, sua expansão e crescimento organizado pela plena atuação do Espírito Santo. Seu autor, Lucas possui fontes confiáveis para a descrição dos seus relatos e testemunhos, assim como ocorre também no seu evangelho. Lucas teve uma relação bem próxima ao apóstolo Paulo, parte considerável de Atos, destinada a apresentar a mensagem sendo anunciada aos gentios, que em certa medida, se confunde com a própria trajetória ministerial de Paulo. O livro possui, marcas significativas do modo grego de história, valoriza discursos, e a apresentação de fatos que dão concretude aos relatos.
p.55Por sua vez, Apocalipse, é sem dúvidas, o livro mais intrigante do Novo Testamento, o termo Apocalipse possui o significado de revelação, mas para muitos, o livro mais oculta do que revela. Precisamos compreender corretamente a perspectiva e objetos de Apocalipse, para que este alinhamento faça sentido em nossa intenção de compreensão do seu conteúdo.
p.56O Apocalipse é o mais inspirador, não obstante ser o mais confundido de todos os escritos do Novo Testamento. Para muitos leitores, sua compreensão é tão difícil que eles o negligenciam completamente. Esta negligência é lamentável, porque, fora os Evangelhos e Atos, nenhum outro livro constitui tamanha fonte de fé e força para os crentes na luta contra o mal. O Apocalipse torna o céu tão real ao leitor que, na força de uma convicção bendita, ele recebe a coragem para continuar a batalha contra o mundo e todos os seus males (HALE, 1983, p.310).
p.56A complexidade de seu tipo literário é evidente. Ele começa (1:4-6) e termina (22:21) como uma carta; contudo, contém cartas dentro do corpo (2:1-3:22). Ele é profético; contudo, é altamente simbólico. Os estudiosos do Novo Testamento colocam este livro numa classe de literatura cujo nome é derivado da primeira palavra do texto grego deste livro: apocalíptica. Talvez nenhum outro livro do Novo Testamento, por sua interpretação, seja tão dependente de seu fundo histórico. As áreas problemáticas são a natureza da literatura apocalíptica, a autoria, a data e o método de interpretação (Hale, 1983).
p.57Apocalipse
FIGURA 1 - Composição literária em Apocalipse
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.57A partir desta breve introdução dos livros de Atos e Apocalipse, faremos uma explanação nos próximos tópicos sobre dois temas da teologia do Novo Testamento que estão diretamente ligados a estes livros, primeiro sobre a atuação do Espírito Santo na igreja e a própria perspectiva dos cristãos sobre esta atuação e no segundo momento, uma análise dentro do tema da escatologia, sobre a relação Israel e Igreja.
p.57Pneumatologia - Atuação do Espírito Santo
p.58Lucas, o autor de Atos dos Apóstolos, procura identificar a sua obra, com características de historiadores em seu tempo. Desde seu prólogo no Evangelho, até sua participação em primeira pessoa no livro de Atos, registra-se os fatos com enorme riqueza de detalhes. A obra do Espírito Santo é um elemento essencial do plano de Deus apresentado no Novo Testamento, com uma declarada ênfase no livro de Atos dos Apóstolos. O papel do Espírito indica o cumprimento das promessas de Deus (At 2.17-33), declara o cumprimento de Jl 2.28-32. João Batista, ao resumir a esperança do Antigo Testamento e anunciar o parákletos, promete a vinda do Espírito com a vinda de Jesus como Cristo (Lc 3.15-18). Para João, o envio do Espírito era a evidência da superioridade de Jesus. No batismo de Jesus, o recebimento do Espírito por Ele traz um dos endossos divinos de sua pessoa (Lc 3.22 alude a Sl 2.7, tornando, assim, Jesus o Filho messiânico, e a Is 42.1, o retrata como o Servo amado), Zuck (2015).
FIGURA 1 - A expansão da igreja em Atos
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
p.59A atividade do Espírito estende-se à comunidade e inclui várias funções. Lucas não enfatiza a recepção individual do Espírito tanto quanto aponta para sua recepção corporativa. Lucas 24.49, passagem que afirma que a promessa do Espírito Santo feita pelo Pai lembra o pronunciamento de João Batista sobre o Cristo por vir e a promessa da esperança da nova aliança, promete essa recepção comunitária. Em (Atos 1: 4,5), Jesus repete a promessa. A concessão inicial, registrada em Atos 2, foi tão importante para Lucas que ele alude a ela em inúmeras passagens. Já em (Atos 10.44-47) menciona uma concessão do Espírito aos gentios semelhante, comparando-a à provisão original registrada em Atos 2 (cf. 11.15,16; 15-8). Atos 19.6 registra outra recepção comunitária do Espírito que envolve os que conheciam apenas o batismo de João Batista. Isso retrata o movimento inicial do precursor na comunidade de crentes. Em Atos 19, a antiga era é substituída pela nova era. Chega o último grupo de transição. O derramamento comunitário do Espírito de Deus não revela apenas a presença dos “últimos dias” (2.17), mas indica também (quando Ele é derramado de novo em At 10) que, no plano de Deus, judeus e gentios são iguais (11.15-18). Eles participam da mesma nova comunhão. Na verdade, (Atos 11.15) olhar em retrospectiva para Atos 2 como o início (apxn - en archê).
p.60Essa nova comunidade, que veio a ser conhecida como Igreja, emergiu dessa união especial, promovida por Deus. O Espírito Santo foi unido aos crentes e lhes conferiu poder “do alto” (Lc 24.49; At 1.8). Tal poder, representa a presença de bênção e de capacitação e manifestou-se o início de um novo período na obra de Deus.
p.60Que funções o Espírito tem nesse plano? A principal atividade do Espírito é encher as pessoas. Encher é o termo genérico que Lucas usa para presença e capacitação. João Batista, antes de nascer, estava cheio do Espírito (Lc 1.15). Na verdade, ele testificou de Jesus, com alegria, enquanto ainda estava no ventre de sua mãe (v. 44). Aqui, cheio do Espírito é a capacidade para testificar de Jesus, a habilidade de funcionar como profeta. Isabel e Zacarias estavam cheios do Espírito e louvaram a Deus (w. 41,67). Cheio com o Espírito relacionava-se com testemunho e louvor. Em Atos 2.4, todos os crentes ficaram cheios do Espírito Santo. Mais uma vez, havia capacitação para testificar de Jesus e para oferecer louvor (v. 11). (ZUCK, 2015, p. 107).
p.60O termo “cheio” também descreve a recepção do Espírito pela comunidade, de acordo com Joel 2, o derramamento do Espírito. Vejamos estes sinais a partir da iluminação lucana: Em Atos, o encher-se do Espírito, mais uma vez, capacita os crentes a testificar de Jesus, quer por meio do louvor individual, como o de Pedro (At 4.8), quer por intermédio do louvor de toda a comunidade (v. 31).
p.60e Afrase (“cheios do Espírito”), no que diz respeito à força, faz paralelo com essa. Em Atos 6.3,5, a expressão refere-se à maturidade dos sete escolhidos para ajudar as viúvas. Aqui, essa expressão fala de uma qualidade, a da espiritualidade permanente.
p.60e Estêvão, um dos sete (v. 5), estava cheio do Espírito no momento de seu martírio, e viu, em uma visão, o Filho do Homem em pé. Estêvão testificou essa visão enquanto morria (7.55,56). Embora Estêvão tenha sido apedrejado por blasfêmia, ele estava cheio do Espírito, foi recebido por Cristo e foi vindicado no céu.
p.61e Saulo foi capacitado para o ministério e ficou cheio do Espírito por meio da imposição de mãos de Ananias (9.17).
p.61e Descreve se Barnabé como cheio do Espírito à medida que ele demonstrou maturidade e ministrou encorajamento aos crentes (11.24).
p.61e Paulo, cheio do Espírito, pronunciou o julgamento sobre Elimas (13.9-11). Aparece uma variação da expressão na descrição de Apoio, homem “fervoroso de espírito” (18.25).
p.61A expressão lucana “cheio do Espírito” descreve um papel importante do Espírito no plano de Deus. Esse papel é o dom da capacitação, quer concedido logo de início, como em Atos 2.4, quer em um momento posterior de orientação espiritual especial. O dom, em geral, descreve a capacidade de testificar de forma ousada de Jesus. Em algumas ocasiões a expressão descreve, de forma geral, o caráter espiritual do indivíduo (Carson, Moo, Morris, 2014).
p.61As palavras demonstram que o Espírito é a força motriz por trás da efetividade da Igreja Primitiva. Jesus concedeu o Espírito não apenas para mostrar que a promessa era cumprida, mas também a fim de capacitar a Igreja para realizar sua missão de levar a mensagem do evangelho ao mundo. O Espírito desempenha outras funções no plano de Deus para sua comunidade. Ele, por intermédio de profetas, fala para Israel e para a Igreja da era apostólica. Esses pronunciamentos proféticos da Igreja envolviam informação a respeito de coisas da vida cotidiana como fome e também exortação e conselho.
FIGURA 1 - Pentecostes
Fonte: Pixabay/geralt
p.62De forma curiosa, o Espírito informa, não com medida impositiva, mas com certa deliberação, dando a possibilidade do fiel decidir a partir dos conselhos dados por Deus. Paulo, em pelo menos uma circunstância, parece ter tido escolha em relação a uma questão levantada pelo Espírito, já que Ágabo, guiado pelo Espírito, roga a ele que não prossiga até Jerusalém onde enfrentaria rejeição por parte dos judeus (21.11). Paulo decide ir assim mesmo, e a passagem termina com esta menção: “Faça-se a vontade do Senhor!” (v. 14). Aparentemente, aqui, a forma como o Espírito faz a exortação profética e a recomendação é algo a respeito do que Paulo pode ponderar. Ele escolhe ir a Jerusalém apesar de saber que enfrentaria rejeição.
p.62O Espírito atua com uma proteção a igreja recém nascida. Em Atos 5.3,5, O Espírito Santo protege a comunidade da mentira de Ananias e Safira. O Espírito, ao executar julgamento na comunidade, protege de forma zelosa a integridade da Igreja. Ele vê o que acontece na Igreja. O Espírito orienta a comunidade de crentes à medida que ela toma decisões e entra em ação. Na epístola escrita por ocasião do concílio de Jerusalém, os líderes declaram que a decisão tomada era da comunidade e do Espírito (15.28). O Espírito concedeu bispos para a comunidade de Éfeso (20.28). O Espírito confortou e encorajou a Igreja à medida que ela crescia (9.31). O Espírito capacita a ser obedientes, em especial, sob a dificuldade da perseguição (Lc 12.12; At 5.32; 6.10). A provisão do Espírito é a forma de Deus capacitar a Igreja a concluir sua missão.
p.63Ações do Espírito Santo na Igreja:
Limita as ações dos que desejam a destruição da igreja, concede uma série de livramentos. Embora em outros casos, permite o cabo das perseguições com um desfecho de sofrimento e morte, mas que glorifica a Deus.
Motiva os apóstolos a permanecerem inabaláveis perante as perseguições externas e frustrações internas no dia a dia da Igreja.
Torna pessoas simples em pessoas ilustres, bons oradores, administradores, realizando milagres e cheios de sabedoria.
Orienta sabiamente os líderes e leigos da igreja, para tomarem decisões em contextos difíceis.
p.64Em Atos, o Espírito Santo é a força motriz na nova comunidade, independentemente da questão que trate com a Igreja, como a disciplina, orientação, Teologia de Lucas-Atos, provisão de liderança ou encorajamento. Deus, junto com a presença do Espírito Santo, chamou as pessoas da nova comunidade a ter uma vida que honrasse a Ele. Deus, por meio de seu Espírito, está em operação, na Igreja do primeiro século, na edificação de um novo grupo exemplar de fiéis. Isso também faz parte do plano dEle. O Deus que planeja e que cuida chamou seu povo.
p.64Existe um intenso debate sobre a atuação do Espírito Santo em relação aos dons espirituais. Nós, enquanto acadêmicos, devemos analisar as propostas teológicas diversas para uma melhor compreensão do fenômeno. Indicamos uma das visões sobre este assunto: Cessacionismo e Continuismo - Augustus Nicodemus Saiba Mais em:
p.64A Igreja e Israel
p.64Um dos temas que jamais se afastou dos debates teológicos, é a respeito do relacionamento entre Israel e a Igreja. Duas situações que estão correlatamente ligas reacenderam o tema, primeiro foi o surgimento de uma corrente teológica chamada dispensacionalismo e a segunda sobre as reflexões que vieram, após e holocauto judeu na segunda guerra mundial.
p.65Dispensacionalismo, é um movimento que alcançou uma influência considerável no evangelicalismo do século XX, em particular no período entre 1920 a 1970. O termo deriva seu nome de sua compreensão acerca da existência de uma série de “dispensações” (palavra que deriva do grego oikonomia) na história da salvação. O movimento originou-se na Inglaterra, com John Nelson Darby (1800 1882). No entanto, assumiu especial importância nos Estados Unidos, sob a influência de €. |. Scofield (1843-1921), cuja Scofield Reference Bible [Bíblia de referência Scofield] (1909) tornou-se um marco no pensamento dispensacionalista (MCGRATH, 2015).
p.65O dispensacionalismo, divide em períodos a história da humanidade, e em cada um destes períodos, um método de administração de Deus:
p.651. Período da inocência, que ocorreu entre a criação e a queda.
p.652. Período da consciência, que ocorreu entre a queda e o dilúvio.
p.653. Período do governo humano, que ocorreu entre o dilúvio e o chamado de Abraão.
p.654. Período da promessa, que ocorreu entre o chamado de Abraão e Moisés.
p.655. Período da lei, que ocorreu entre Moisés e a morte de Cristo.
p.656. Período da igreja, que ocorreu entre a ressurreição e o tempo presente.
p.657. Período do milênio.
p.65Para os adeptos à corrente dispensacionalista, Deus trata de forma separada Israel em relação à Igreja. Tal diferença tem reflexos na conversão dos judeus e na escatologia. O endurecimento em relação à salvação de Israel sempre será parcial, pois, através dos sucessivos séculos, sempre haverá alguns que aceitam o Senhor. Deus continuará reunindo os Seus eleitos remanescentes dos judeus durante toda a nova dispensação, até à plenitude (pleroma, isto é, o número total dos eleitos) dos gentios, e, assim (desta maneira), todo o Israel (seu pleroma, isto é, o número total dos verdadeiros israelitas) será salvo. “Todo o Israel” deve entender-se como um designativo, não da nação toda, mas do número total dos eleitos, do povo da antiga aliança (Berkhof, 2013). Já no âmbito escatológico, os eventos da volta de Jesus e milênio são vistos de forma peculiar. A volta de Cristo possui duas etapas, sendo a primeira para a Igreja, no arrebatamento, e a segunda para Israel, em seu retorno visível para todos os habitantes da Terra, neste mesmo evento, a Igreja arrebatada volta com Cristo para reinar por mil anos.
FIGURA 1 - A Cidade de Jerusalém
Fonte: Pixabay/sdecesare
p.66Outras duas reflexões se somam nestas análises. A teoria dos “dois pactos” afirma que Deus possui duas alianças distintas mas ainda em pleno vigor, uma como Israel e outra com a Igreja. Já a teoria da “substituição radical” vai ao outro extremo, afirmando que Deus rejeitou totalmente Israel, e que a Igreja a substitui e possui total exclusividade do tratamento dado por Deus.
p.67A segunda interpretação destes eventos é concernente a visão reformada. Para este grupo, com a morte e ressurreição de Jesus, já não existe distinção entre os povos, pois Cristo fez de Israel e gentios um grupo só. Em virtude do pecado de Adão e de suas implicações para toda a raça humana, todos se sujeitaram à maldição da lei e se tornaram herdeiros de uma natureza pecaminosa e corrupta. A vinda de Jesus será no final desta era, sem o evento do arrebatamento, e o milênio não é necessariamente literal, mas sim uma forma de expressar o sucesso do evangelho em sua aceitação pela humanidade. Na visão reformada, o evangelho de Jesus Cristo cumpre diretamente as promessas do pacto da graça para todos os crentes, sejam judeus ou gentios. Israel e a Igreja não são dois povos distintos; em vez disso, a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus.
p.67Para conhecer mais sobre essas quatro visões, veja este artigo sobre o tema Israel e a Igreja. Igreja e Israel: a controvérsia Saiba mais em:
p.67A discussão a respeito deste tema, permanecerá sempre presente na teologia cristã. Eventos como guerras e perseguições aos judeus, funcionam como catalisadores dos debates. Fato concreto, é a observação de que existe um relacionamento entre o nascimento da igreja, proveniente das promessas de Deus primeiramente tidas aos judeus e que conforme Romanos 11, Deus estará a desenvolver um plano redentor para a nação. O exame do relacionamento de Israel com a Igreja requer definir a igreja por meio do exame do papel dos apóstolos e da consideração do que, na verdade, é dito aos gentios e a Israel sobre a promessa de Deus. No início de Atos dos Apóstolos, os apóstolos não parecem considerar que foram chamados a se separar de Israel. Eles iam ao Templo e se reuniam lá (At 3.1-10; 4.1,2; 5.12). A prática deles era sensível em relação às preocupações judaicas (15.1-35; 21.17-26). Mais adiante, em Atos dos Apóstolos, Paulo pregava para os judeus nas sinagogas de todos os lugares aonde ia (13.14-48; 28.17).
p.67Agora, a partir das correntes escatológicas vejamos um resumo:
O milênio não é literal. Ocorrerá o estabelecimento do reinado de Cristo por meio da pregação e propagação do Evangelho. o Retorno de Cristo ocorrerá ao final deste período.
O Milênio é literal e começa este período após o arrebatamento da Igreja. No Milênio, Cristo reinará com a Igreja na Terra.
Milênio simbólico, onde a vitória de Cristo sobre Satanás garante este reinado através da Igreja.
Doutrina que acredita no retorno de Cristo repentinamente, conhecido como arrebatamento ou segunda vida de Cristo 1º Fase. A tribulação começa logo após este evento e dura sete anos, sendo que ao fim destes sete anos, acontece a segunda vinda de Cristo, 2º fase e inaugura o Milênio literal.
Cristo vem arrebatar a Igreja no meio da grande tribulação
Cristo retorna em sua segunda vinda no final da tribulação, sendo que esta tribulação não precisa ter relação com a sete anos literais.
p.69A Igreja é algo novo e antigo, novo por causa de seu caráter e escopo, e antigo no que se refere ao que Deus disse sobre a vinda do Espírito e aos dons e bênçãos de perdão da Igreja, relacionados com alianças e promessas existentes ligadas à esperança de Cristo e sua ressurreição. Para Zuck (2015) a era da Igreja representa uma prévia do futuro governo terreno de Cristo. A presença transformadora do Espírito de Deus em seu povo mostra que Ele está ativo no cumprimento de sua promessa de derrotar os inimigos do povo de Deus, à medida que Ele os capacita a servi-lo em santidade, concedeu-lhes vida e poupaos do julgamento porvir (Lc 1.74,75,78,79; 3.7-18; 11.14-23; At 2.30-39). A habitação do Espírito na comunidade retrata até certo grau, mas não totalmente, como será o reinado e governo supremo de Cristo quando Ele retornar à Terra a fim de trazer justiça para todos. Todavia, apenas nesse retorno futuro os inimigos de Jesus e do povo de Deus serão totalmente derrotados, quando tudo for restaurado, e as promessas para Israel forem realizadas em sua plenitude (At
p.69Para encerrar, destaco uma consequência importante desta concepção escatológica para a vida cristã: o reconhecimento de que, enquanto ainda não está consumada a salvação, os cristãos permanecem sob os efeitos do pecado, por isso, ainda adoecem, sofrem, morrem, são injustiçados etc. Mas, em todas essas situações, são “mais do que vencedores” (cf. Rm 8,31-39). A verdadeira esperança cristã motiva-nos, portanto, a: (1) viver na certeza e na tranquilidade da salvação que é consumada em nós pelo próprio Deus (Rm8,24-25); (2) realizar a missão de Deus, anunciando e vivendo o Evangelho do Reino (Mt 24,14); e (3) perseverar na fidelidade a Deus e na busca da sua santidade, resistindo a todo pecado e maldade (Mt 24,13; | Pedro 4,12-19).
▶ Assistir ao vídeo da aula ↗p.72Conclusão
p.72Caro (a) estudante, chegamos ao final de mais uma unidade de estudo, e também no nosso E-book. Nesta última unidade verificamos que o Espírito Santo teve grande influência para o surgimento e estabelecimento da Igreja, mesmo que ainda permitisse que a decisão final, estivesse sobre a responsabilidade dos cristãos. A teologia bíblica foi estabelecida pela cooperação dos cristão e do Espírito. Verificamos temas da teologia do Novo Testamento, que ainda são campos de profundo debate, como a relação de Israel e a Igreja, as correntes amilenistas, pós-milenistas e pré-tribulacionistas.
p.72Ao final deste material, incentivamos você, amigo (a) estudante a continuar seus estudos nestas temáticas e ampliar sua capacidade intelectual. Muitos outros temas estarão a seu dispor e use a bibliografia indicada, para encontrar bons referenciais teóricos. Até mais!
p.72Referências Bibliográficas
p.72BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.
p.72CARSON, D. MOO, D.J., MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova: São Paulo, 1997.
p.72ERICKSON, Millard. Teologia sistemática. Editorial Clie, 2009.
p.73Hale, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Tradução de Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1983.
p.73McGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
p.73WELKER, Michael. O Espírito Santo. Estudos Teológicos, v. 48, n. 1, p. 5-17, 2008.
p.73ZUCK, Roy B. Teologia do Novo Testamento. 7º Impressão. CPAD: Rio de Janeiro, 2015